Desconfiança marca relação entre espiões dos EUA e do Paquistão

CIA e a agência paquistanesa de inteligência dependem uma da outra, mas cooperação esbarra em restrições

Mark Mazzetti, THE NEW YORK TIMES, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

28 de julho de 2008 | 00h00

Quando concluem seu treinamento na base da CIA, localizada na costa da Virginia, conhecida como "The Farm" (A Fazenda), os jovens recrutados pela agência aprendem uma lição que não devem esquecer nunca durante as missões no exterior: não existe um serviço de inteligência amigo. Os serviços de espionagem estrangeiros, mesmo os dos mais próximos aliados dos Estados Unidos, vão tentar manipulá-lo. Portanto, o melhor é aprender como agir da mesma maneira.Mas muitos veteranos da CIA concordam que nenhum relacionamento é tão estranho e tão tenso como o existente entre a CIA e a agência da inteligência militar do Paquistão, o ISI. Ele é parecido a um péssimo casamento em que ambos os cônjuges há muito tempo deixaram de confiar um no outro, contudo jamais pensam numa separação porque estão muito dependentes um do outro.Sem o apoio do ISI os agentes americanos no Paquistão não conseguiriam levar adiante sua principal missão no país: caçar militantes islâmicos, incluindo membros do alto escalão da Al-Qaeda. Por outro lado, sem os milhões de dólares americanos secretamente enviados ao Paquistão, o serviço secreto do país não conseguiria competir com o serviço de espionagem da sua arqui-rival, a Índia. TALEBAN NA MIRAMas o relacionamento é complicado por uma teia de interesses concorrentes. Em primeiro lugar, o principal objetivo americano na região é escorar o governo do Afeganistão e os serviços de segurança afegãos para que combatam seu inimigo tradicional, o Taleban. No Paquistão, o interesse primordial dos EUA é desmantelar o refúgio do Taleban e da Al-Qaeda nas montanhosas zonas tribais. Durante toda a década de 90, o Paquistão, e especialmente a sua inteligência, usaram o Taleban e os militantes dessas áreas para exercerem o poder no Afeganistão e impedir que a Índia conseguisse exercer influência na região. O ISI também apóia outros grupos militantes que lançam operações contra tropas indianas na Caxemira, o que complica os esforços de Washington para estabilizar a região.Há poucos exemplos na história de serviços de espionagem confiando realmente um no outro. Normalmente, pessoas que ganham seus salários mentindo e assumindo identidades falsas não são os parceiros mais confiáveis. Além disso, os espiões sabem que a melhor maneira de roubar segredos é penetrar nas fileiras de um outro serviço de espionagem.Mas, durante anos, circunstâncias acabaram levando a parcerias bem-sucedidas, embora efêmeras, entre espiões. Durante a 2ª Guerra, o Office of Strategic Services (Agência de Serviços Estratégicos), predecessora da CIA, trabalhou com as agências que precederam a da KGB para caçar nazistas, mesmo que EUA e União Soviética rapidamente acabassem se tornando adversários. Atualmente, a relação entre Moscou e Washington voltou a ficar glacial no caso de diversas questões. Mas, silenciosamente, espiões russos e americanos continuam colaborando para combater o tráfico de drogas e o crime organizado, além de proteger os arsenais nucleares.INVASÃO SOVIÉTICAO relacionamento entre CIA e ISI era bem menos complicando quando Estados Unidos e Paquistão estavam concentrados num objetivo comum: a expulsão da União Soviética do Afeganistão. Por anos, na década de 80, a CIA usou a inteligência militar paquistanesa para canalizar armas e dinheiro para os rebeldes afegãos que lutavam contra as forças soviéticas.Mas, mesmo naquele tempo, os dois serviços secretos estavam longe de confiar um no outro - em particular, quando se tratava da busca do Paquistão por armas nucleares. Em seu livro, Ghost Wars (Guerras Fantasma), o jornalista Steve Coll narra como o chefe da inteligência paquistanesa no inicio dos anos 80, o general Akhtar Abdur Rahman, proibiu qualquer contato social entre seus agentes e os da CIA no Paquistão.Ele estava convencido também de que a CIA tinha criado uma complicada rede de escutas, e assim, ao telefone, só falava em código com seus comandados. Quando o general e seus assessores foram convidados pela CIA a visitar os locais de treinamento da agência nos Estados Unidos, eles foram obrigados a usar vendas nos olhos nos vôos para as instalações. A partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, os agentes da CIA chegavam a Islamabad sabendo que, provavelmente, dependeriam do ISI, pelo menos tanto quanto dependeram, no passado, de outros serviços secretos de ligação.Ao contrário dos serviços de inteligência nas capitais da Europa, onde os agentes conseguem unir-se para desenvolver uma rede de informantes, apenas uma minúscula parcela de agentes da CIA consegue caminhar pelas ruas de Peshawar, perto da fronteira com o Afeganistão, despercebida.ÁREA RESTRITAUma fração ainda menor pode se locomover livremente pelas áreas tribais para recolher informações úteis sobre redes militantes por ali. Mesmo o poderoso ISI, dominada pelos punjabis, que formam a maior etnia do Paquistão, tem dificuldades para colher informações nas áreas tribais, terra natal das ferozes tribos pashtun. Por essa razão, o ISI há muito tempo se vê obrigado a depender dos líderes tribais pashtun, e em alguns casos dos militantes pashtun, como informantes-chave.Por causa das desvantagens naturais, os agentes da CIA lançam mão de todas as possibilidades oferecidas pela tecnologia, a única vantagem que têm sobre os espiões locais.Por exemplo, o governo paquistanês há muito tempo restringiu a área em que a CIA pode usar seus aviões não-tripulados, os "drones" Predadores, no espaço aéreo do Paquistão, delimitando sua rota a um determinado espaço dentro da malha aérea. Qual a resposta da CIA a essa restrição? Deliberadamente, os Predadores voam além das áreas autorizadas, até mesmo para testar os radares paquistaneses. E, segundo um ex-agente, os paquistaneses normalmente sabem disso.Como o número de vítimas aliadas e americanas no Afeganistão aumentou nos últimos dois anos, o ISI acabou se tornando tema de um acirrado debate dentro da CIA. Muitos agentes, em especial os estacionados no Afeganistão, acusam seus colegas da CIA em Islamabad de estarem muito acomodados em relação aos espiões do ISI. Ocorreram disputas implacáveis entre chefes da base da CIA em Cabul e Islamabad, particularmente sobre o significado da ameaça militante nas zonas tribais. Às vezes, Cabul acha que o ISI está ajudando os militantes, mas que os agentes da CIA no Paquistão recusam-se a discutir o assunto com o serviço de inteligência paquistanês.Veteranos da base da CIA em Islamabad chamam a atenção para a captura de importantes líderes da Al-Qaeda no Paquistão nos últimos anos, como prova de que o serviço de inteligência paquistanês mostrou estar comprometido em rechaçar as redes de terror. Foi o ISI, dizem, que se encarregou dos preparativos que levaram à captura de Khalid Sheikh Mohammed, Abu Zubaydah e Ramzi bin al-Shibh.Sublinham também que o ISI tem tanta razão em desconfiar dos americanos quanto a CIA de desconfiar deles. A CIA abandonou a região depois da retirada soviética do Afeganistão em 1989, em vez de ficar e impedir o caos e a guerra civil que, no final, levaram ao predomínio do Taleban, nos anos 90. Após a retirada, os instrumentos americanos para entender a complexidade das relações na Ásia Meridional e Central enferrujaram.O ISI opera numa região onde as alianças mudam constantemente, onde o jogo duplo é a regra, e isso é algo que muitos em Washington têm problemas para aceitar.Até o fim de 2007, quando assumiu o comando de todo Exército, o chefe da inteligência militar era o general Ashfaq Parvez Kayani. Agentes americanos descrevem o elegante general como um entusiasmado jogador de golfe de manias estranhas. Freqüentemente, durante reuniões, ele perde alguns minutos enrolando cuidadosamente um cigarro e, depois de tragá-lo, ele o apaga.Apesar dos resmungos na CIA quanto à relação com o ISI, existe um certo respeito, mesmo que relutante, pela qualidade maquiavélica do serviço secreto paquistanês. Alguns ex-espiões chegam até a falar do serviço com um misto de admiração e inveja.Segundo um membro do alto escalão da CIA aposentado, entre todos os espiões estrangeiros com quem a CIA precisou tratar, Kayani foi o mais formidável. Para ele, o chefe da inteligência militar é um manipulador magistral. "Admiramos esse traço de personalidade", disse ele.TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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