Desconstrução de um presidente em seis anos

Ascensão brilhante de Obama ao poder contrasta com resultados práticos obtidos, apesar da pouca culpa em parte disso

WHITNEY, EULICH, THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2014 | 02h01

Ao ser eleito pela primeira vez presidente dos Estados Unidos, em 2008, Barack Obama foi considerado uma nova personalidade política envolvente. Em 2014, a queda persistente de sua popularidade e o fato de ter sido virtualmente abandonado por seu próprio partido no segundo mandato são em grande parte uma decorrência do primeiro fenômeno: as expectativas foram superiores à realidade.

É importante destacar, no entanto, que a realidade mudou - e em muitos aspectos. Obama não fracassou como presidente. De fato, foram várias suas realizações em circunstâncias consideradas praticamente impossíveis.

Nos dois primeiros anos de sua presidência, quando seu Partido Democrata controlava ambas as Casas do Congresso, ele adotou muitas medidas para conter a mais grave crise econômica desde a Grande Depressão. Do mesmo modo, conseguiu a aprovação da histórica reforma no sistema de saúde do país, a lei que define a proteção ao paciente e o cuidado acessível.

Mesmo agora, apesar da oposição dos republicanos e de grandes grupos de interesses, ele conseguiu direcionar a política energética para atender à questão das mudanças climáticas e da redução dos gases do efeito estufa.

O presidente também deu passos importantes para assegurar os direitos das mulheres e das minorias sexuais e usou seu poder de governar por decreto para abrandar as restrições à imigração impostas às famílias durante um período de paralisia do Congresso.

A avaliação da presidência de Obama não deve se concentrar apenas nele, mas também na hostilidade sem precedentes dos republicanos. Antes mesmo de ele assumir o cargo, os líderes republicanos tramavam se opor a todas as suas propostas para que ele não pudesse reivindicar o apoio dos dois partidos. Nenhum republicano votou a favor de sua lei da saúde, embora tenha sido formulada com base em planos que tiveram o apoio de alguns representantes republicanos e de destacados grupos de pesquisa.

O truque mais astucioso dos republicanos foi a utilização de recursos de natureza processual para impedir que projetos de lei chegassem ao Senado para ser votados, a fim de que o eleitorado acabasse atribuindo a Obama "o impasse em Washington". Quando os índices de aprovação da presidência começaram a cair, chegando a pouco mais de 40%, os democratas cometeram o erro tático de dar-lhe as costas. Os eleitores concluíram que ele estava sendo abandonado pelo próprio partido e sua popularidade caiu ainda mais.

Como consequência, nas eleições legislativas de meio de mandato, realizadas em novembro, os democratas desistiram de apoiar qualquer medida que tivesse o respaldo de Obama e travaram uma campanha sem objetivo, contribuindo para um baixo comparecimento dos eleitores do partido às urnas. Os candidatos republicanos, que realizaram campanhas extremamente controvertidas contra Obama, trucidaram seus adversários.

Fatores. Evidentemente, uma avaliação honesta da presidência de Obama não pode ignorar o quanto sua raça influiu. De fato, o que se constata é que os EUA estavam muito menos preparados para um presidente negro do que seus partidários previam (ou esperavam), como demonstraram os virulentos ataques a ele dirigidos, que ultrapassaram os limites do tolerável, tratando-se de um presidente.

Além disso, a abordagem de Obama a questões que envolviam a raça foi fortemente limitada pelo medo - que, aliás, ele expressou em seu precoce livro de memórias Dreams From My Father - de ser visto (até mesmo por sua mãe branca) como um "negro revoltado". Devemos, no entanto, creditar-lhe o mérito de ter tratado de maneira eficaz a intrincada questão racial que emergiu após os acontecimentos em Ferguson, no Missouri, transformando o assassinato de um adolescente desarmado no foco principal de uma ação nacional para melhorar os métodos usados pela polícia.

A personalidade de Obama também contribui para seus problemas. Em sua ascensão surpreendentemente rápida, ele esteve praticamente sozinho - um democrata, mas não um produto do Partido Democrata, um político de instintos progressistas, mas não um ideólogo. Como preço disso, a tendência a isolar-se fez com que não tivesse a menor inclinação a estabelecer novos vínculos e aliados em Washington, apoiando-se, pelo contrário, na família e nos seus amigos mais próximos de Chicago.

Além disso, ele não costuma dar atenção a assuntos de menor importância ou ao lado mais dúbio da política, e o desmedido orgulho de sua inteligência excepcional o torna impaciente com as ideias dos outros. Consequentemente, membros do Congresso, figuras exponenciais do mundo dos negócios, entre outros, sentem-se desconcertadas na sua presença - e até mesmo insultadas por sua frieza.

Blindagem. No plano mais geral, a estratégia de governo de Obama contraria sua afirmação inicial de que pretendia criar uma "equipe de rivais" que apresentasse visões opostas. Sua preferência por cercar-se de pessoas de comprovada lealdade produziu uma Casa Branca considerada, até mesmo por alguns membros do gabinete, pouco interessante. Por outro lado, essa equipe exerce um rigoroso controle da linha política. Os próprios integrantes do gabinete têm se irritado porque as suas propostas costumam ser submetidas a demoradas revisões pelas comissões da Casa Branca, cujos relatórios frequentemente são pouco claros.

A ênfase na lealdade é particularmente flagrante no campo da segurança nacional. Susan Rice, sua assessora nessa área, está com Obama desde 2008. Embora seja considerada uma profissional inteligente, é desprovida de uma visão estratégica. Isso, com sua declarada combatividade, comprometeu a formulação de políticas coerentes em questões cruciais como a crise na Síria.

O ex-secretário da Defesa Chuck Hagel não conseguiu atravessar a redoma construída em torno de Rice. As divergências de Hagel em relação à Síria foram muitas vezes levadas diretamente a Obama. Depois das eleições de meio de mandato, Hagel - o terceiro secretário da Defesa de Obama em seis anos - tornou-se o bode expiatório de um governo que demonstrava pouca coordenação. Nem mesmo lhe foi concedida a dignidade de uma simples renúncia, sem que se deixasse afetar pelo vazamento de comentários de funcionários da Casa Branca de que ele "não estava à altura do cargo". Considerando a boa reputação de Hagel em Washington, a medida refletiu mal no governo.

É improvável que Obama encontre conforto contra as lutas internas no último reduto dos presidentes anteriores em fim de mandato: a política externa. Obama não deveria ser culpado pelas dificuldades que os EUA enfrentam nessa área. Não foi ele que criou o caos no Iraque e no Afeganistão e não é sua culpa se a condução da política externa é mais difícil no mundo fragmentado dos nossos dias do que durante a Guerra Fria. Tentar afirmar a liderança global teria sido difícil para qualquer presidente. Na semana passada, Obama anunciou a reaproximação com Cuba.

Embora Obama seja uma personalidade brilhante, tem-se mostrado propenso a cometer erros estranhos. Com um John McCain aparentemente fora de controle na presidência da Comissão do Senado para as Forças Armadas, a situação provavelmente ficará ainda mais complicada.

À medida que a política americana se torna mais polarizada e Obama luta para administrar os desafios decorrentes de históricos desdobramentos globais, os grandes programas internos destinados a tratar da crescente desigualdade provavelmente estarão fora do alcance do seu governo. E, apesar de não faltarem candidatos para suceder-lhe em 2016, depois de sua experiência, nos perguntamos por que alguém iria querer esse emprego. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA E AUTORA DE 'WASHINGTON JOURNAL: REPORTING WATERGATE AND RICHARD NIXON'S DOWNFALL'

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