Ricardo Moraes/Reuters
Galeão, no Rio: Brasil deixa de ser destino recomendado  Ricardo Moraes/Reuters

Descontrole da pandemia no Brasil assusta América do Sul 

Percepção de que governo brasileiro é incapaz de conter avanço da covid espalha medo em países vizinhos; nova cepa brasileira já foi identificada além da fronteira e é motivo de preocupação entre autoridades da região

Paulo Beraldo e Renato Vasconcelos , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

Peru e Colômbia proibiram voos do Brasil. O Uruguai mandou mais doses de vacinas para a fronteira com o Rio Grande do Sul. Quem vai do Brasil para o Chile precisa ficar em quarentena. Os argentinos impuseram restrições à entrada de brasileiros e a Venezuela tem medo da nova variante surgida no País.

Líder de contaminações e mortes em números absolutos na região, o Brasil preocupa os vizinhos. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou ter grande preocupação com a letalidade e a transmissão do vírus entre os brasileiros. “Se o Brasil não for sério, continuará afetando sua vizinhança – e além”, afirmou Tedros Adhanom, diretor da OMS. 

O Brasil é o terceiro país com mais vizinhos no planeta – faz fronteira com 9 nações, além da Guiana Francesa, ficando atrás de Rússia e China. “Muitos estão caminhando na direção certa, mas não é o caso do Brasil”, criticou Mark Ryan, da cúpula da OMS.

Embora tenha 3% da população mundial, hoje um em cada quatro mortos por covid no mundo é brasileiro. O País registra ainda recordes negativos em sua média de mortes desde o início de março, mostrando que a pandemia está em seu pior momento, com hospitais em colapso e mortes superando em média a casa das 2 mil por dia. 

Para Marcos Azambuja, ex-embaixador do Brasil na Argentina, o País precisa “voltar aos trilhos” e agir depressa no momento em que a pandemia perde força em outras partes do mundo, com a vacinação. “O Brasil não pode ser retardatário. Não pode se transformar num pária sanitário do planeta”, disse. 

“Como grande laboratório da imunidade de rebanho, o Brasil tornou-se uma ameaça para a segurança da saúde global”, afirma a professora Deisy Ventura, coordenadora da pós-graduação em saúde global da USP. “Além de sequelas, mortes evitáveis e do custo para o sistema de saúde em insumos e leitos, a disseminação do vírus favorece mutações virais e novas variantes.” 

As restrições afetam ainda os clubes brasileiros que disputam a Copa Libertadores. No início do mês, a Conmebol transferiu o jogo entre Ayacucho e Grêmio do Peru para o Equador. A mudança foi necessária em razão do veto imposto pelas autoridades peruanas à entrada de brasileiros. Os peruanos jogaram no Brasil, já que a tradicional regra de reciprocidade adotada entre nações não se aplica a normas sanitárias. Os brasileiros, portanto, têm recebido tratamento diferente nos países vizinhos em relação ao dispensado a eles aqui.

Este problema não se restringe aos gramados. As restrições deixaram o Brasil de fora do pan-americano de mountain bike, que conta pontos para o ranking olímpico. As barreiras para a entrada de brasileiros em Porto Rico, sede da competição e território administrado pelos EUA, inviabilizaram a viagem, prejudicando a corrida dos atletas do País por uma vaga nos Jogos de Tóquio.

Ao todo, 108 países impedem a entrada livre de brasileiros ou turistas que tenham passado por aeroportos no País, segundo levantamento do Estadão, com base em dados da Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata), sites de agências de viagens e contatos com as embaixadas dos países no Brasil.

 

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Argentina endurece medidas e sente falta de turista brasileiro

Governo teme contágio com cepa brasileira, mas comerciantes de Puerto Iguazú ignoram risco e pedem reabertura

Denise Paro, especial para o Estadão, e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

FOZ DO IGUAÇU - Fechada há mais de um ano, desde 16 de março de 2020, a Ponte Tancredo Neves que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú não deve ser reaberta tão cedo caso o contágio de coronavírus não seja freado no lado brasileiro. O governo da Argentina ignora apelos dos comerciantes e do setor turístico de Puerto Iguazú, município de 80 mil habitantes que amarga um prejuízo com a impossibilidade de receber brasileiros, acostumados a frequentar restaurantes e bares. 

Segundo o presidente da Câmara de Comércio da cidade, Joaquim Bonetti, pelo menos 20% dos 2.400 pontos comerciais da cidade fecharam. “Temos negócios com portas fechadas na cidade, mas no centro há diversos que já fecharam de forma definitiva”, diz Bonetti.

A Argentina impôs mais restrições a voos na semana passada. Argumentou que vizinhos vivenciam aumentos de casos, citando Uruguai, Paraguai e Brasil. No começo do ano, metade dos voos de ida e volta do Brasil já haviam sido cortados – agora, a nova redução é de 20%, pois a entrada de brasileiros está proibida, à exceção de residentes e parentes. A Argentina tem 2.218.425 casos de covid e 54.231 mortos. 

Na segunda-feira, 50 cientistas argentinos publicaram um documento pedindo o fechamento das fronteiras para evitar ou enfraquecer o avanço da cepa de Manaus. Eles afirmam que a redução dos voos não é suficiente e pedem quarentenas restritas para quem volte de lugares com novos casos. 

Eles alertam que se a cepa crescer, “pode ser como começar uma pandemia do zero e possivelmente pior”. A imprensa argentina noticiou ao menos quatro casos isolados da variante em pessoas que voltaram do exterior. 

O receio da escalada do vírus no Brasil vem mais das autoridades do que da própria população de Puerto Iguazú. São comuns afirmações de comerciantes e trabalhadores do turismo da cidade, onde ficam as Cataratas argentinas, de que não temem os brasileiros e querem a fronteira aberta com protocolos sanitários. 

Proprietário de um estabelecimento que vende frios e bebidas, Victor Enrique diz que o movimento está 50% abaixo do normal. Ele afirma que uma parcela da população não dependente dos turistas apoia as medidas, mas há insatisfação com o que ele chama de radicalização. Outros que não se importam com a rigidez do governo são que se beneficiam do contrabando de alimentos vindos de Foz do Iguaçu e, na contramão, vinhos e azeites argentinos, que continuam entrando em larga escala no Brasil. 

O infectologista argentino Hugo Pizzi, professor da Universidade de Córdoba, defende maior controle das fronteiras. Ele lembra que a conexão entre os dois países é muito íntima, o que pode facilitar a entrada das cepas brasileiras. “As fronteiras são muito porosas e a verdade é que muita gente passa sem controle. São centenas de caminhões do Brasil por todo o território argentino diariamente, outros atravessam o país, vão para o Chile e depois voltam.” 

O intensivista Clóvis de Almeida, que trabalha em Neuquén, na região da Patagônia argentina, diz que sente a população preocupada com o que ocorre no Brasil. “O povo argentino vê a pandemia no Brasil sem controle. Deveria ter havido medidas mais concretas, estratégicas, de períodos curtos e rotativos para diminuir o nível de contágio”, afirma. 

O especialista critica os extremos – uma Argentina completamente fechada por um período muito prolongado e um Brasil completamente aberto por tanto tempo. Para ele, são bem-vindas medidas como mais controle nas fronteiras e quarentena para quem entra no país. 

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Vírus chega à Venezuela por trilhas ilegais

Com o sistema de saúde em colapso na maior parte do país, os vizinhos do Brasil apertam as medidas de prevenção para não sofrerem o impacto da infecção da variante

João Renato Jácome / Especial para o Estadão , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

RIO BRANCO - Os venezuelanos que vivem na cidade de Santa Elena de Uarén, em Gran Sebana, na Venezuela, temem a chegada da variante brasileira do novo coronavírus à região. A cidade, com pouco mais de 29 mil habitantes, fica a 15 quilômetros de Pararaima, na fronteira com Roraima.

Com o sistema de saúde em colapso na maior parte do país, e o alerta dos cientistas sobre o potencial de letalidade da variante amazônica P1, os vizinhos do Brasil apertam as medidas de prevenção para não sofrerem o impacto da infecção da variante.

No ano passado, quando as infecções por coronavírus aumentaram, a Venezuela foi o primeiro país do continente a decretar quarentena nacional e mandar fechar as fronteiras, impedindo muitos moradores de cruzar para fazer compras ou trabalhar no Brasil. As restrições aumentaram o fluxo de migratório por trilhas clandestinas.

Mesmo com as medidas aplicadas pelo governo venezuelano, dezenas de moradores de Santa Elena cortam a fronteira diariamente para o lado brasileiro. Para isso, eles utilizam as trilhas sem fiscalização, seja da Guarda Nacional Bolivariana, ou mesmo da Polícia Federal do Brasil ou do Exército.

Com isso, os moradores que permanecem em Santa Elena de Uarén, para evitar o contágio da covid-19, começam a temer a chegada da nova variante encontrada no Amazonas. É o que comenta a administradora de empresas Génesis Mariannys, de 30 anos, que está internada há 13 dias em um hospital da cidade, com o coronavírus.

“A preocupação que temos aqui é a mesma que imagino ser de todo o mundo, essa variante da covid é muito mais forte, e agora a população jovem está sendo mais atingida. É o que temos visto aqui. Nos preocupa mais porque há países mais avançados na questão de saúde, mas aqui, não é tão avançado, então precisamos ter muito cuidado”, comenta.

Segundo Mariannys, que está com 60% dos pulmões comprometidos, a população não atende às recomendações preventivas das autoridades, o que agrava a situação. Isso causou, na avaliação dela, o aumento no número de casos da doença na região.

“Faltam muitos recursos para atender esse tipo de doença aqui na Venezuela. Eu, por exemplo, acredito que peguei covid na rua. As pessoas vivem uma vida normal aqui.”

Especialistas estimam que a cepa brasileira chegue à Venezuela em abril. O temor diante da nova tipagem viral se espalha por todo o país, desde os pequenos vilarejos até a capital, Caracas. “Em um mês, essa variante estará em plena atividade de transmissão em nosso país”, avalia o médico Rafael Orihuela, especialista em saúde pública.

O virologista Hector Rangel, pesquisador do Centro de Microbiologia e Biologia Celular do Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica (IVIC), destacou que quase 60 casos suspeitos já foram registrados no país e estão sendo analisados. “As novas variantes aparentam uma melhor capacidade de multiplicação, de infecção. É maior do que a mutação anterior. Essa variação tem mais facilidade de infectar as células”, disse.

A Venezuela tem 147 mil casos confirmados, segundo a Universidade Johns Hopkins, com 1.459 mortes

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Na Colômbia, preocupação com Amazonas

Governo reforçou medidas de prevenção, temendo um surto no país após morte de um colombiano vítima da variante brasileira do coronavírus

João Renato Jácome / Especial para o Estadão , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

RIO BRANCO - Com a morte de um colombiano, vítima da variante P1 do coronavírus, o governo da Colômbia reforçou as medidas de prevenção, temendo um surto no país. A morte do idoso foi confirmada pelo Instituto Nacional de Saúde da Colômbia, no dia 12, e causou um corre-corre entre as autoridades preocupadas com a chegada da cepa brasileira – como a vítima não havia saído da Colômbia, a infecção ocorreu por meio de transmissão local.

A infecção foi detectada ainda em janeiro, mas após análise e investigação do governo, só foi possível anunciar a infecção pela variante em março, quase dois meses depois da morte do idoso. A variante é apontada como a responsável por causar o colapso do sistema de saúde de Manaus (AM), que em janeiro deste ano não suportou a demanda.

Temendo a nova tipagem viral, a auxiliar de serviços gerais Ana Parra, de 50 anos, que vive em Letícia, fronteira com o Brasil, afirma que a população está aterrorizada, principalmente após a confirmação da primeira morte.

“Temos muito medo, porque esse vírus, ao que tudo indica, e os jornalistas estão mostrando todos os dias, é muito mais forte e mais letal. Tememos que ele chegue até nossa casa, logo esse vírus brasileiro, porque o governo do Brasil não consegue controlar a pandemia aí, e agora esse mal pode vir para o nosso país, e matar mais pessoas”, desabafa a colombiana.

O que chama a atenção de Parra, é que apesar de estar com a covid-19, parte da população ignora o fato de que a doença pode matar, e trata a doença como uma “simples gripe”. Isso, segundo Ana Parra, é um pouco do que tem agravado a situação na Colômbia, onde mais de 60 mil mortes pela doença já foram registradas.

“Estamos pensando em tudo isso, porque muita gente está morrendo aqui na Colômbia, e já teve um caso de morte por conta dessa variação, de mutação do coronavírus. Não quero nem imaginar ser contaminada por ele, ou que alguém da minha casa seja. Esta mutação é muito séria, mas muita gente acha que não. É preciso acreditar que sim”, diz ela.

O medo da nova variante atinge também a família de Líbia Payrrado, que vive com outras cinco pessoas em Letícia. Ela trabalha na assistência local aos doentes e conta que muitos jovens estão se infectando. Segundo Líbia, a variante P1 já circula há semanas na cidade. “Estamos em isolamento total. O comércio está 80% fechado. A cada dia está morrendo mais gente. Estive muito doente, e estou muito preocupada.”

Na sexta-feira, durante pronunciamento, o vice-ministro da Saúde da Colômbia, Luís Alexandre Moscoso, revelou que há um aumento nos casos positivos e elevação nas internações em UTI, obrigando o governo a manter as medidas de isolamento e restrição comercial “para evitar uma nova curva de contágio”, como aconteceu entre os meses de julho e agosto e entre dezembro e janeiro deste ano. 

 

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Peru recorre a Exército para apertar controle

No Peru, os governadores e prefeitos têm autonomia para exigir ações de controle da pandemia

João Renato Jácome / Especial para o Estadão , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

RIO BRANCO - Com um serviço de saúde precário, os moradores de cidades peruanas que fazem fronteira com o Brasil temem a chegada de novas cepas do coronavírus. A costureira Gabriela Gomes, de 43 anos, vive em Madre de Dios, a 4 quilômetros da cidade de Assis Brasil, no Acre. Gabriela aumentou os cuidados para evitar a infecção da variante amazônica.

"Quem sai do Brasil pode trazer o vírus. E temos de pagar tudo aqui no Peru, porque o sistema é privado”, disse Gabriela, que tem medo de ver os filhos, dois adolescentes, infectados. Em 2020, ela pegou covid no Brasil. “As medidas que vemos no Brasil, infelizmente, não são o melhor exemplo.” 

No Peru, os governadores e prefeitos têm autonomia para exigir ações de controle da pandemia. O governador regional de Madre de Dios, Hidalgo Okimura, vem defendendo métodos de prevenção para reduzir o número de infecções, impedindo mais mortes e superlotação dos hospitais. 

“Estamos bastante preocupados com o aumento no número de casos em nossa região. Essa é uma situação que deve fazer com que as pessoas, a população, comecem a refletir sobre tudo”, disse.

O Estado, que faz divisa com o Brasil, está com as fronteiras fechadas desde março de 2020 e colocou o Exército para impedir a entrada e saída de pessoas, pela cidade de Iñapari.

Okimura avalia a possibilidade de mais restrições. “Atualmente, nossa região está numa situação moderada. Mas é possível que nos classifiquem em um nível mais crítico, significando a necessidade de aplicar restrições ainda maiores e obrigar a ter um maior isolamento social”, afirma o governador.

O Peru, como o Brasil, vem batendo recordes de contaminação nas últimas semanas. O país, que possui mais de 2,8 mil quilômetros de fronteira com Brasil, já registrou 1,3 milhão de casos e quase 50 mil mortes. Há falta de oxigênio em alguns hospitais peruanos. 

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Chile isola viajantes em ‘residências’

As residências são gratuitas e bancadas pelo governo do Chile, país que já vacinou mais de 20% de sua população

Paulo Beraldo e Renato Vasconcelos , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

Desde 11 de março, viajantes que desembarcam no aeroporto de Santiago, a única entrada do Chile, têm tratamento especial: quando chegam, são direcionados para um local onde farão um teste de diagnóstico para coronavírus. Depois, são levados para “residências sanitárias” – espaços alugados pelo governo onde os viajantes devem esperar pelo resultado do exame. O prazo varia de 24 a 72 horas. Se for negativo, podem seguir viagem. Se for positivo, precisam completar a quarentena de 14 dias.

As residências são gratuitas e bancadas pelo governo do Chile, país que já vacinou mais de 20% de sua população. Podem ser hotéis, casas ou apartamentos alugados por aplicativos, todos pré-selecionados pelas autoridades. 

Chilenos que não tenham condição de fazer a quarentena em suas casas também podem pedir para se hospedar nesses locais, com banheiros e quartos individuais, alimentação, cuidados básicos e monitoramento das condições de saúde. As visitas são proibidas e é preciso permanecer no quarto todo o período de isolamento.

O chileno Luís Ibañes passou pela quarentena ao voltar de Nova York e disse que teve uma experiência tranquila. No seu caso, um hotel prestava o serviço e ele ficou dez dias confinado. “É um hotel normal, com a diferença que não é permitido sair e a comida é entregue no quarto”, afirma. 

Para ele, a medida é uma boa forma de reduzir os contágios. “Talvez seja uma boa saída para outros lugares que haja alto nível de pessoas contagiadas.” O Chile tem 904 mil casos confirmados, de acordo com a Universidade Johns Hopkins, com 21,8 mil mortos. 

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Entrada fácil no Paraguai, mas controle policial

País quase não impôs restrições à entrada de brasileiros; mesmo assim, nas ruas, alguns carros com placas do Brasil são abordados

Denise Paro / Especial para o Estadão , O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

FOZ DO IGUAÇU - A circulação entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu diminuiu com a escalada de casos de covid no Brasil. Em Foz, os leitos de UTI estão tomados há três semanas.

“Alguns paraguaios, habituados a frequentar confeitarias, supermercados e lojas do lado brasileiro, só cruzam a fronteira agora para o que é essencial”, diz o brasileiro Marcio Giordani, que vive na cidade de Santa Roda del Monday. Ele conta que há um medo generalizado em relação ao Brasil. “Receio todo mundo tem. Quem vai para Foz é por necessidade médica.”

No lado paraguaio, não há controle na Ponte da Amizade. O Paraguai quase não impôs restrições à entrada de brasileiros. A única é a apresentação de um PCR negativo feito por laboratório autorizado até 72 horas antes da chegada. Mesmo assim, nas ruas, alguns carros com placas do Brasil são abordados.

Brasileiro que estuda medicina no Paraguai, Daniel Ronque conta que sua universidade, em Puerto Presidente Franco, vizinha a Ciudad del Este, emitiu um documento para que os alunos não tenham problemas com a fiscalização. Muitos circulam no Paraguai e já foram alvo da polícia.

Ciudad del Este sente os efeitos da pandemia. CEO do Grupo Cell Motion, Jorbel Griebeler diz que o comércio vive a pior fase desde que a Ponte da Amizade foi reaberta, em outubro, com uma redução de 70% do movimento. “O fluxo de gente caiu. Em fevereiro já começou a ficar ruim.” Para ele, os constantes lockdowns no Brasil estão refletindo no fluxo de turistas e compradores. 

 

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Uruguai envia vacinas para blindar fronteira

No geral, os brasileiros não podem entrar no país, exceto no caso de reagrupamento familiar

Rodrigo Evaldt / Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

SANT’ANA DO LIVRAMENTO - No Uruguai, sobras de vacinas de outras regiões do país serão direcionadas para "blindar e selar" a fronteira com o Rio Grande do Sul, onde o sistema de saúde entrou em colapso no fim de fevereiro. 

"Estamos 'ameaçados' pela situação epidemiológica brasileira. A rapidez com a qual nos vacinamos vai ser fundamental para que o vírus deixe de sofrer mutações no nosso país. Quando o vírus está circulando, sofre mutação", afirmou Daniel Salinas, ministro da Saúde uruguaio.

No geral, os brasileiros não podem entrar no país, exceto no caso de reagrupamento familiar. "Sim, nos preocupa o estado (da pandemia) no Brasil e a circulação da variante P1", disse a matemática María Inés Fariello, integrante do Grupo Assessor Científico Honorário (GACH) do governo do Uruguai. 

O país começou a vacinar pessoas de 50 a 70 anos nos últimos dias, inclusive brasileiros com dupla cidadania, e intensificou as barreiras sanitárias na fronteira com o Brasil, que tem pouco mais de mil quilômetros.

Nesta semana, o governo do Uruguai anunciou que, a partir do dia 29 de março, iniciará o agendamento de pessoas entre 18 e 70 anos para que possam se vacinar contra a covid-19. O anúncio considera também os brasileiros que têm nacionalidade uruguaia e vivem em zonas de fronteira. A população nessa condição não é exata, contudo, boa parte das pessoas que nascem na região da fronteira seca do Rio Grande do Sul têm família com dupla nacionalidade. 

No dia 1º de março, o Uruguai começou o plano nacional de vacinação pelos policiais, militares do Exército, bombeiros e professores. Logo em seguida iniciou a imunização dos profissionais da saúde e de pessoas entre 50 e 70 anos.  

O país oferece várias formas de marcar a vacinação. No dia e hora marcados, o tempo de identificação até a vacinação dura em torno de 10 minutos. Essa realidade é vivida por quem mora nas cidades conurbadas – e sem controle migratório – de Sant’Ana do Livramento, no Brasil, e Rivera, no Uruguai. 

É o caso do contador e administrador Aristeu Antonello, de 55 anos. Ele e sua mulher puderam se vacinar no Uruguai, mas a sua sogra, Cecília Amaral, de 77 anos, precisou esperar mais alguns dias para receber o imunizante na cidade brasileira. 

“Em um primeiro momento fiquei eufórico por ter sido contemplado com a possibilidade de ficar imune à covid, mas depois triste, com a sensação de ter passado à frente de pessoas, parentes mais idosos com quem eu convivo”, relatou Antonello. 

Sua mulher, a professora Carla Antonello, de 52 anos, considera inteligente a "barreira de proteção" feita pelo Uruguai, vacinando os uruguaios que residem nas cidades que fazem fronteira com o Brasil.  

Enquanto isso, no lado brasileiro da fronteira, a vacinação evolui aos poucos. No dia 18, o município de Sant’Ana do Livramento anunciou que começaria a vacinação dos idosos acima dos 70 anos. A aposentada Maria de Lourdes Dias, de 74 anos, falou sobre os momentos de espera. “Estou em casa desde o dia 9 de março de 2020, o meu irmão faz as compras, meu filho vai no banco e minha nora paga as contas”, contou. 

Maria de Lourdes é filha de pai uruguaio e também poderia ter feito sua nacionalidade no país vizinho, já que a legislação lhe garante esse direito pelo princípio da consanguinidade. A condição de “doble chapa”, ou dupla nacionalidade, lhe teria assegurado a vacinação em Rivera.  

 

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