Desculpem pela falta de decência e pelos corruptos

As desculpas de Murdoch servem tanto para a falta de ética de suas empresas quanto ao conluio das autoridades

Katrina Vanden Heuvel, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2011 | 00h00

"Desculpem", diziam as mensagens de página inteira que a News Corp. de Rupert Murdoch publicou nos jornais da Grã-Bretanha, numa nova campanha de reparação, evidentemente montada pela empresa de relações públicas criada para administrar a crise das escutas ilegais.  

 

 

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Muito bem dito. "Desculpem" é uma expressão que se aplica tão bem quanto qualquer outra ao império da mídia de Murdoch: o empreendimento de um pirata que zomba das leis e da decência, e vende, como resume o biógrafo de Murdoch, William Shawcross, "excitação, sensacionalismo e vulgaridade" para conquistar públicos enormes, e usar o mexerico, o absurdo, as histórias fabricadas e uma ótica distorcida para promover uma ideologia de direita.

"Desculpem" também se refere perfeitamente às autoridades reguladoras e aos políticos de ambos os lados do Parlamento e do oceano que se deixaram seduzir pelo dinheiro de Murdoch, temeram o seu poder e serviram de cachorrinhos de estimação, e não de cães de guarda, enquanto ele consolidava e expandia seu império.

Na Grã-Bretanha, o escândalo estourou com as revelações da escuta ilegal do celular de uma adolescente assassinada, usada pelo News of the World, dando aos pais falsas esperanças de que ela ainda poderia estar viva. Agora, a exposição dos grampos de cerca de 4 mil vítimas, acompanhada pela revelação dos subornos pagos a policiais para obter informações privilegiadas, joga por terra o artigo de capa do News of the World, segundo o qual este foi o trabalho de um jornalista, de um editor criminoso, ou de um policial corrupto.

O diretor da Scotland Yard e seu vice renunciaram e, até o momento, foram presas dez pessoas, entre elas Rebekah Brooks, diretora da News International, uma subsidiária britânica da News Corp., e Andy Coulson, ex-editor do News of the World, que foi chefe da assessoria de imprensa do primeiro-ministro conservador, David Cameron.

Les Hinton, que dirigiu a News International antes de Brooks, demitiu-se da direção da Dow Jones e do jornal The Wall Street Journal.

Como disse Mark Lewis, advogado da família de Milly Dowler, a garota assassinada: "Não se trata apenas de um indivíduo, mas da própria filosofia de uma organização". Realmente, desculpem. Por outro lado, a sordidez, os escândalos e a corrupção não são exclusivos da Grã-Bretanha. Consolidando sua holding da mídia nos EUA, Murdoch tornou-se conhecido por escolher o jeito mais fácil e por usar dinheiro e poder para obter favores das autoridades reguladoras.

David Carr, escreveu no New York Times que a News Corp. pagou milhões em acordos para pôr fim a ações indenizatórias contra seu comportamento ilegal. Em 2009, ele solucionou uma destas ações, movida contra ele por uma companhia chamada Floorgraphics que acusava a News America, uma subsidiária de Murdoch, de invadir seu sistema de computadores, difamando-a levando-a a perder clientes. A News Corp. pagou US$ 29,5 milhões e posteriormente comprou a Floorgraphics.

O céu que despenca sobre o império de Murdoch deve servir de lembrete da importância de uma imprensa independente, corajosa, incorruptível, e de um sistema regulador e legal capaz de enfrentar os monopólios da mídia que nivelam cidades e países.

É preciso que todas as principais autoridades, na Grã-Bretanha e nos EUA, façam com que as leis sejam obedecidas, empreendam investigações agressivas de toda conduta criminosa e revelem a cultura do conluio entre os políticos e a imprensa. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA

 

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