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Gilles Lapouge
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Desejo de independência

Pânico na Inglaterra. Pânico nas colinas doces do Sussex, nas praias de Brighton, pânico no Palácio de Buckingham e na City, e pânico no número 10 de Downing Street, sede do Executivo britânico. Uma sondagem de opinião indicou que os escoceses, que votarão na quinta-feira sobre sua união com a Inglaterra, estariam prestes a pular fora: 51% se manifestaram pela independência, 49% prefeririam permanecer na Grã-Bretanha.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2014 | 02h02

O premiê britânico, David Cameron, não havia imaginado semelhante cenário e ficou em pânico. Ele foi apanhado de surpresa porque, algumas semanas atrás apenas, os escoceses rejeitavam a independência. O que teria se passado? De todo modo, trata-se de um cenário completamente novo que se impõe, desde domingo, após essa última sondagem. Pela primeira vez, vislumbra-se seriamente uma ruptura da Grã-Bretanha. Que terremoto uma tal ruptura provocaria! Todas as celebridades escocesas entraram na "luta final". Sean Connery mobilizou James Bond para os independentistas. No lado oposto, J. K. Rawling, com seu pequeno Harry Potter ao lado, milita pela permanência na Grã-Bretanha. Até David Bowie se engajou: "Escoceses, ficai conosco!" O duelo entre o "sim"e o "não" não interessa somente aos salmões da Escócia, à rainha Elizabeth, ao monstro do Lago Ness, aos bebedores de uísque e aos cavalheiros da Idade Média trajando seu kilt. Ele apaixona toda a Europa. E em especial as regiões que, aqui e ali, ardem por conseguir o que a Escócia está prestes a conquistar: sua independência.

É o caso da Bélgica onde a Aliança Neoflamenga que conquistou em 2012 municípios importantes como Anvers, se declara "separatista". Na Espanha, Madri é permanentemente desafiada no País Basco, que está aparentemente calmo, mas que gostaria de ser uma nação. E dentro de dois meses, em 9 de novembro, a industriosa Catalunha vai se pronunciar por referendo sobre a sua independência.

Na Itália, é o Norte, a riquíssima região de Turim, que não suporta mais arrastar o peso pesado pobre e "andrajoso" que é a Itália do Sul.

Na França, a Córsega, uma ilha em permanente efervescência, promete abandonar a luta armada pela independência, mas por quanto tempo? Inútil dizer que tempestade independentista, caso desabe de fato sobre a Grã-Bretanha dentro de alguns dias, lançaria centelhas crepitantes de uma ponta a outra do Velho Continente. O referendo catalão de 9 de novembro será inevitavelmente influenciado pelo comportamento dos eleitores escoceses de 18 de setembro. Como certas doenças, o prurido da independência é contagioso.

Seria o caso ir mais longe e evocar sob a mesma rubrica acontecimentos que se desenrolam em contextos totalmente diferentes, por exemplo, no Oriente Médio e, amanhã, quem sabe, na África? Nossas sociedades parecem ter chegado a uma transição misteriosa. Tudo se passa como se princípios e noções universais que nem guerra e nem revolução conseguiram abalar, tivessem se tornado friáveis. É o caso no Iraque e na Síria onde tenta-se formar uma "nebulosa islamista" ignorando as noções de Estado, justiça e fronteira.

É o caso na Ucrânia onde um país não sabe mais se é russo ou ucraniano. A História talvez tenha entrado em uma nova província, num tempo que estaria à procura de novos conceitos, de lógicas inéditas, de jurisprudências desconhecidas e de vocabulários em movimento. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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