AFP PHOTO / Vasily MAXIMOV
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Desejo de mudanças

Opositor russo leva às ruas multidão, em grande parte jovens entre os quais predomina sentimento de que seu futuro foi sequestrado pela corrupção

The Economist, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2017 | 05h00

Às duas da tarde de 12 de junho, Elizaveta Chukicheva, de 16 anos, aluna de uma escola técnica de Moscou, permanecia parada no meio da Rua Tverskaya, no centro da cidade, junto a uma reprodução gigante de um ídolo da antiguidade pagã russa. Tinha na mão um cartaz com os dizeres: “Eu amo a Rússia”, e vestia uma camiseta com a imagem do líder oposicionista Alexei Navalni. 

Contrariando a orientação dos pais, ela resolvera ir a um comício convocado por Navalni no Dia Nacional da Rússia, com o objetivo de protestar contra a corrupção e promover sua candidatura a presidente na eleição de 2018. “Meus pais falam que a gente não tem como mudar nada e não há perspectivas para este país”, diz a moça. “Mas eu não quero ir embora da Rússia e acredito que a gente pode, sim, mudar as coisas.” 

Horas antes, Navalni tinha sido detido em frente ao prédio onde mora, sob a acusação de organizar um comício “não autorizado”. Autoridades moscovitas haviam autorizado a realização do evento em outro local, mas então, segundo o líder oposicionista, passaram a sabotá-lo, impedindo que as locadoras alugassem os materiais necessários para montar um palanque. 

Receando que, num evento com ares amadorísticos, ele emergisse como uma figura ridícula, e não como um candidato à presidência, Navalni orientou seus correligionários a se dirigirem à Rua Tverskaya, para onde seria transferido o comício.

No local, o Kremlin havia bloqueado o trânsito para um festival celebrando o “Passado Vitorioso da Rússia” (daí o ídolo pagão). A rua estava ocupada por reconstruções históricas de triunfos militares, dos tempos de Ivã, o Terrível, à 2.ª Guerra (A Guerra da Crimeia também estava representada, muito embora os russos tenham sido derrotados no conflito travado entre 1853 e 1856).

Ao chegar à Rua Tverskaya, os manifestantes de Navalni - muitos jovens que jamais viveram sob outro governo que não o de Vladimir Putin - viram-se cercados por pessoas vestidas com armaduras medievais, mantos czaristas do século 19 e fardas do Exército e da polícia secreta da era stalinista. 

Quando se puseram a gritar coisas como “Rússia sem Putin!” e “O poder aqui somos nós!”, os cavaleiros medievais correram em busca de um lugar para se esconder e, em seu lugar, entrou em ação o batalhão de choque da polícia, usando cassetetes para fazer os manifestantes recuar.

Por mais surreal que tenha sido, a cena sintetiza o embate político em curso na Rússia. O regime retrógrado de Putin, que tenta se legitimar restaurando símbolos do passado imperial, está sendo desafiado por uma nova geração de russos, entre os quais predomina o sentimento de que seu futuro foi sequestrado pela corrupção, pela hipocrisia e pelas mentiras da elite no poder.

O símbolo dos protestos é um pato de borracha, alusão a um documentário divulgado por Navalni em março, em que o oposicionista acusa o primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, de corrupção. O vídeo mostra as propriedades suntuosas de Medvedev, uma das quais exibe, no meio de um lago, a casinha de um pato de estimação. Medvedev nega as acusações.

Há alguns anos, um vídeo desse tipo teria provocado risadas. Agora, causa indignação. “Somos diferentes da geração de nossos pais, já que não temos futuro”, diz um dos jovens manifestantes. Embora não concorde com o nacionalismo de Navalni, o rapaz vê nele a melhor oportunidade de mudança.

A decisão de mudar o comício para um local não autorizado foi arriscada. Mesmo aos olhos de alguns dos simpatizantes de Navalni, foi uma provocação. Mas o objetivo era mostrar que as regras que o Kremlin estabeleceu para a atuação política na Rússia, e os esforços que o governo vem fazendo para excluir o líder oposicionista da corrida presidencial, são irrelevantes. Nisso se notam ecos do fim dos anos 80, quando Mikhail Gorbachev, último presidente da era soviética, tirou Boris Yeltsin do comando da prefeitura de Moscou, na tentativa de obliterá-lo politicamente, sem se dar conta de que Yeltsin já se tornara popular demais para ser expulso da política. 

Navalni organizou uma rede de cerca de 120 mil voluntários, com ramificações em todo o país. Mesmo que o Kremlin rejeite reconhecer isso, o fato é que ele é visto como uma alternativa a Putin.

As manifestações ocorreram em 170 cidades da Rússia, reunindo 150 mil pessoas, segundo os organizadores. Em 26 de março, em outro dia de protestos, a participação foi estimada em 100 mil pessoas, em 90 cidades. Cerca de metade dos manifestantes tinha entre 18 e 29 anos. 

“Foram as maiores manifestações desde 1991”, afirma Leonid Volkov, principal auxiliar de Navalni. Muitos manifestantes dizem não ter medo de que a polícia os prenda. Para eles, faz parte da coisa.

Um dos motivos da revolta é a economia. A renda real dos russos recuou 13% nos últimos dois anos e meio, regredindo ao nível de 2009. As vendas do varejo encolheram 15%. Os investimentos estão em queda há três anos, com um declínio acumulado de 12%. Natalia Zubarevich, especialista em desenvolvimento regional, diz que os fatores econômicos são amplificados pela frustração com a falta de liberdade política e com a hipocrisia governamental.

O Kremlin busca desesperadamente uma narrativa que Putin possa vender para o eleitorado em 2018. Alguns esperam apresentá-lo como um estadista sexagenário, nos moldes de um Deng Xiaoping, capaz de implementar reformas e, ao mesmo tempo, reprimir dissidentes. 

O potencial reformista do regime é duvidoso. Sua disposição repressiva, não. A polícia deteve 866 manifestantes em Moscou e 658 em São Petersburgo, segundo o OVD-info, grupo de defesa dos direitos humanos. 

Em Moscou, identificou-se a presença de um policial que foi chefe de um batalhão de choque ucraniano e participou da repressão aos protestos em Kiev, em 2014. “Isto aqui não é uma Maidan. Não vamos esperar ordens para atirar”, disse um jovem soldado russo.

No ano passado, o governo criou uma Guarda Nacional, com 400 mil homens, sob o comando de um ex-guarda-costas de Putin, que responde diretamente ao presidente. A maior parte dos soldados que participaram da repressão aos protestos regulava em idade com os manifestantes. Nas palavras do analista político Kirill Rogov, o espetáculo de 12 de junho pareceu ser o ensaio de uma “guerra civil”. / TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER 

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