Desemprego é destaque em conferência nos EUA

Uma mistura de política e negócios com ética, direitos humanos e sustentabilidade permeou os três dias de atividades da terceira conferência global do One Young World (OYW), uma organização sem fins lucrativos que vem sendo chamada de Davos Júnior, numa referência ao encontro anual de empresários e chefes de Estado na pequena cidade suíça para debater problemas globais. O OYW reuniu 1.300 jovens de até 30 anos de todos os continentes que desenvolvem projetos e lideram iniciativas para enfrentar problemas globais em seus países.

ANDRÉIA LAGO, Agência Estado

21 de outubro de 2012 | 18h46

O público reunido em Pittsburgh, uma pacata cidade da Pensilvânia acostumada a grandes eventos desde que sediou a reunião do G-20, em 2009, fez perguntas e debateu com nomes tão abrangentes quanto os assuntos tratados no evento - de Bill Clinton à cantora britânica Joss Stone, do ex-secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, ao badalado chef britânico Jamie Oliver, além do presidente do Barclays, Antony Jenkins, e do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron.

O saldo foi uma preocupação recorrente com o aumento do desemprego e a falta de confiança de profissionais com menos de 30 anos nas instituições e nos políticos de seus países. "Não há empregos para os jovens que saem das universidades, procurei durante meses e só consegui um estágio não remunerado", disse a portuguesa Joana Rebelo de Andrade, de 22 anos, formada em Comunicação e Multimídia.

Portugal é um dos países atingidos pela crise de dívida soberana na zona do euro que recebeu ajuda externa de 75 bilhões de euros do Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia em maio de 2011.

Na semana passada, o governo português anunciou novas medidas de austeridade, incluindo uma elevação na alíquota do imposto sobre renda para até 43%. Joana apóia as medidas como uma chance de fazer seu país avançar. "É uma fase, e quando isso acabar o país vai ser melhor para a minha geração. É difícil, mas vai passar", acredita.

Corrupção

Em meio aos debates sobre transparência de governos e empresas para reverter a crise de confiança nas instituições, a corrupção desponta como uma preocupação particularmente em países em desenvolvimento. Segundo uma pesquisa com 6.269 jovens de até 30 anos em 12 países - incluindo o Brasil - realizada pelo One Young World em agosto deste ano, corrupção é um impedimento ao acesso à educação para metade dos entrevistados.

Em países como Brasil e Rússia, no entanto, os índices são em mais elevados: 80% no Brasil e 78% na Rússia acreditam que a corrupção limita o acesso à educação. "A corrupção é a principal razão pela qual a Rússia não consegue crescer de acordo com seu potencial", disse o químico Konstantin Semishchenko, que desenvolve projetos para a Unilever em São Petersburgo. "Mesmo tendo sido aprovado e cumprido todos os requisitos, para obter meu diploma de doutorado em química um funcionário me disse que teria de pagar ou refazer os exames", relatou.

Com a crise econômica global desempenhando um papel-chave no aumento do desemprego e na falta de perspectivas profissionais entre os jovens, o sistema financeiro teve um papel de destaque nos debates do OYW. Um vídeo com imagens do movimento Occupy Wall Street , que se espalhou para diversas cidades mundo afora em setembro de 2011, abriu caminho para o mea-culpa do atual presidente do banco britânico Barclays, Antony Jerkins.

"Vou reformar o Barclays após o escândalo da Libor", disse o CEO do banco, que assumiu o cargo em agosto, após a renúncia da diretoria da instituição diante do escândalo de manipulação da taxa Libor pelo Barclays em junho deste ano. "Leis e regulação não podem substituir o comportamento ético que é exigido de grandes organizações", reconheceu.

O britânico Will Hutton, autor de vários livros sobre o papel do Estado e coordenador de uma série de iniciativas adotadas pelo governo britânico para que o Estado pague preços justos no setor público, resumiu o sentimento deixado pela crise financeira: "Permitimos que o sistema financeiro global fosse longe demais".

Segundo Hutton, a quebra de confiança nas grandes corporações teve um impacto de 40% no crescimento do PIB do Reino Unido desde 2008, e nos EUA ele estima que esse impacto foi ainda maior, podendo chegar a 70%. (A jornalista viajou a convite do One Young World)

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