Desemprego é novo drama de reduto xiita radical de Bagdá

Com a retirada das tropas dos EUA, moradores de Sadr City oferecem sua força de trabalho para atuar como diaristas

GUILHERME RUSSO , ENVIADO ESPECIAL / IRAQUE, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2012 | 03h01

Os restos dos muros que as tropas americanas usaram para cercar e dividir internamente o distrito de Sadr City, em Bagdá - considerado o local com a maior concentração de insurgentes xiita na capital do Iraque durante os nove anos de ocupação estrangeira - marcam a paisagem da comunidade localizada no leste da maior cidade iraquiana. Grande parte das muralhas já foi retirada desde a saída das tropas dos EUA, em dezembro, mas blocos de concreto de até três metros de altura ainda isolam o subúrbio, limitando seu acesso a alguns pontos, devidamente controlados pelas forças de segurança locais.

No Mercado Jamila, considerado o maior centro comercial de Sadr City, na região conhecida como Setor 55, o principal artigo em oferta nas ruas é a força de trabalho de centenas de desempregados xiitas que todos os dias ocupam a movimentada avenida diante da zona comercial na esperança de que alguma caminhonete os encaminhe para os serviços gerais que realizam.

"Somos simples trabalhadores. Fazemos construções, reformas, demolições. Mas não temos trabalho quase nunca. Ultimamente, tenho trabalhado apenas um dia a cada quinzena - e falo em nome de todos aqui", disse Sghir Said, de 38 anos, afirmando que, quando consegue uma diária de serviço, obtém, em média, 75.000 dinares (cerca de US$ 60). "Não é suficiente. Temos pedido empréstimos aos amigos para conseguir sobreviver. Muito raramente conseguimos algo bom, mais duradouro."

Nesse momento, a entrevista foi interrompida por um soldado do Exército iraquiano que fazia a segurança do local e exigia saber se a reportagem do Estado tinha autorização oficial para atuar no país.

Enquanto o militar entrava em contato com seus superiores, porém, os trabalhadores seguiam falando a respeito de sua situação, ressaltando que a falta de segurança ainda prejudica o comércio do mercado Jamila.

"Hoje (ontem) mesmo, duas pessoas foram mortas bem ali", disse Saad Jasmin, de 24 anos, apontando para o centro do núcleo comercial de Sadr City. "Ninguém conhece os assassinos", afirmou, ao ser questionado se os matadores seriam de facções rivais aos xiitas do distrito. "A execução foi a tiros, muita gente viu. Ninguém fala nada, pois quem mora aqui só se importa consigo mesmo. Isso é normal por aqui. Acontece quase todos os dias."

Os comerciantes e os desempregados que atuam na região contaram que a rotina do Mercado Jamila foi alterada em virtude da violência iniciada com a invasão americana, em 2003, e a consequente reação do Exército Mehdi, que tinham sua principal base em Sadr City. O Exército é composto pelas milícias comandadas pelo clérigo Muqtada al-Sadr, que combateram a ocupação dos EUA organizando a resistência xiita contra os estrangeiros e as forças de segurança locais que tinham seu apoio.

Em vez de funcionar noite adentro, como a maioria dos locais de comércio a céu aberto do mundo árabe, o Jamila passou a ser organizado só durante o dia.

Ainda hoje, a maioria dos comerciantes evita abrir seus postos de trabalho antes do amanhecer ou mantê-los abertos após o cair da noite. E os trabalhadores desempregados oferecem seus serviços apenas durante as manhãs.

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