André Naddeo
André Naddeo

Desenhos mostram sonhos de crianças refugiadas

Projeto criado por voluntário brasileiro revela como se sentem menores que chegaram à Europa fugindo de guerras e perseguição religiosas em seus países

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA

29 Maio 2016 | 05h00

Elas fugiram de bombas em guerras que sequer saiam o motivo da disputa. Atravessaram mares em barcos precários. Perderam irmãos, pais e mães, sem que respostas os fossem dadas. Agora, no limbo em direção a locais seguros, vivem um drama psicológico profundo. Essa é a história de milhões de crianças refugiadas às portas da Europa. 

Na esperança de mitigar esses traumas, o brasileiro André Naddeo criou o projeto Drawfugees, para ajudar esses menores a se exprimir e, assim, lidar com seus próprios dramas. Voluntário e jornalista, Naddeo escolheu o porto de Pireus, nas proximidades de Atenas, para desenvolver o trabalho. A cada dia, monta um local para que as crianças possam pintar e, em três semanas, já reuniu mais de 30 desenhos e depoimentos. 

Para ganhar a confiança das famílias, ele conta que dorme e come no mesmo local que os refugiados. Como voluntário, ajuda a limpar e cozinhar. Sua estratégia é dar voz para a crianças por meio das artes. “Deixar que elas sejam crianças”, disse. “Todos tiram fotos desses menores. Mas o que é que eles estão sentindo?” 

Segundo ele, as “armas potentes” para lidar com essa realidade são lápis, papel e pensamento dessas crianças. E, em praticamente todos os desenhos, a mensagem é a mesma: a vontade de construir um mundo em paz, mesmo quando o papel retrata a forma como os refugiados chegaram até a Europa.

“Escolhi desenhar um barco, Foi assim que eu vim para a Grécia, em um barquinho”, disse a síria Lulu, de seis anos, no relato colhido pelo brasileiro. Também da Síria, a garota Rauan Taleb diz ter desenhado a si mesma. “Esta sou eu. Eu amo desenhos. Fazem com que me sinta dentro de meu próprio sonho.” 

A afegã de apenas seis anos Sana Shirzad ainda tem em sua memória os bombardeios. “Essa é a nossa casa sendo bombardeada pelos americanos”, disse. “Até o Bob Esponja está desesperado. Aqui na direita (do desenho), meu coração triste deixa o Afeganistão.” 

Linin, um garoto iraquiano de nove anos, desenhou um arco-íris. “Essa é a minha cidade, Bagdá, e eu. Ah, e o arco-íris, tão colorido. Eu sinto falta das cores do meu país. Na verdade, sinto falta de muitas coisas.” 

Ahmed, um sírio de doze anos, desenhou o que sonha: sua família. “ Eu estou aqui sozinho”, disse. “Toda a minha família ainda está na Síria, tentando sobreviver. Esse desenho representa meu pai, minha mãe e meu irmão. E todo o meu país. As vezes, eu fecho os olhos e me sinto em casa.” 

Youssef Souqi, também da Síria e com nove anos, também traduz seu sonho no papel. “Meu irmão está sozinho na Alemanha, com amigos dos meus pais. Meu maior sonho é de, todos nós juntos, entrando numa casa nossa de novo”, disse. 

Foi justamente um desenho que emocionou o papa Francisco, em sua passagem pela ilha de Lesbos na Grécia em abril. 

No voo de volta para Roma, o pontífice mostrou aos jornalistas que o acompanhavam um desenho de um afegão. No desenho, o sol estava chorando sobre os barcos naufragados dos refugiados que cruzavam o Mediterrâneo. “Se o sol tem a capacidade de chorar, nós também temos”, disse.

 

Situação. Um dos problemas mais graves dentro da crise migratória, segundo a ONU, é que cerca de 500 mil crianças que pediram status de refugiado na Europa continuam em um limbo jurídico. Mais de um milhão dos refugiados sírios pelo mundo são menores. “Para que o sistema de asilo na Europa seja humano, justo e eficiente, a proteção das crianças precisa ser uma prioridade central”, afirmou Noala Skinner, diretora do Unicef para a Europa. 

O que assusta as entidades internacionais é o número elevado de alertas que estão recebendo sobre o fato de que muitas dessas crianças estão terminando nas mãos de grupos criminosos nas periferias das cidades europeias ou até exploradas sexualmente.

ONGs e a própria ONU também alertam que, em 2015, a morte de crianças atravessando o mar bateu todos os recordes. Em setembro, a morte do garoto Aylan Kurdi, numa praia da Turquia, comoveu o mundo. Sua imagem se transformou no símbolo da crise dos refugiados. No mês que se seguiu, no entanto, mais de 70 outras crianças morreram afogadas tentando cruzar o mar entre a Turquia e a Europa, praticamente nas mesmas condições.

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