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Lourival Sant'Anna/AE
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Deserção contra a violência

O sargento Dandash teve de fugir da Síria para não ter de matar manifestantes

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, HACIPASA, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h08

Ammar Dandash adiou o quanto pôde seu alistamento no serviço militar obrigatório. Em maio de 2010, aos 26 anos, teve de ingressar no Exército sírio. O tempo de duração normal seria um ano e nove meses. Como estava na faculdade, fazendo curso de inglês, obteve a patente de sargento. Tornou-se o chefe da guarda da 18.ª Unidade de Homs, no centro-oeste da Síria.

Seu irmão mais novo foi o primeiro manifestante preso em Jisr al-Shoughur, a cidade natal de sua família, no noroeste do país, depois de escalar um poste e arrancar a foto do presidente Bashar Assad durante um protesto. O jovem barbeiro ficou preso durante 23 dias, 15 dos quais crucificado. Foi solto mediante pagamento de US$ 4 mil. Até hoje, diz Dandash, seu irmão tem as cicatrizes dos choques elétricos, e sofre de problemas psicológicos. Vive com toda a família no campo de refugiados de Bohsen, no lado turco da fronteira com a Síria.

Quando os protestos chegaram a Homs, Dandash e outros militares compreenderam que teriam de desertar se não quisessem matar os manifestantes. Mas Dandash não podia deixar sua família para trás. Como ele previu, os parentes de militares desertores têm sido presos e mortos.

A tarefa seria facilitada, no seu caso, porque seu núcleo familiar - os pais, cinco filhos e duas filhas - não tem muita ligação com a família estendida - tios e primos - , o que é incomum nas sociedades árabes. Tratava-se apenas dos nove. E dificultada porque seu pai teve as pernas e braços paralisados por um derrame cerebral. Dandash consultou seu irmão mais velho, caminhoneiro assim como seu pai antes do derrame. Ele aprovou a ideia de virem todos embora para a Turquia.

Deserção não é tarefa simples em nenhum Exército, menos ainda no da Síria, no início de uma guerra civil. Dandash e seus companheiros não queriam apenas desertar. Queriam levar armas com eles, para ajudar na revolução. O grupo tinha cerca de 30 a 35 militares, de várias unidades. Na 18.ª eram 5 sargentos e 1 tenente.

Eles guardaram em um esconderijo no quartel 7 fuzis AK-47 e 150 balas para cada um. Estava acertado que amigos viriam da cidade de Hama com um carro trazendo barris de graxa, dentro dos quais os fuzis e munição seriam escondidos, sem se danificar.

No dia marcado, 9 de junho, Dandash viu o tenente caminhando e conversando em voz baixa com o general que comandava a unidade, e ficou com receio de estarem sendo traídos. Mais tarde, ele foi chamado numa sala em que estavam o general e outros três oficiais. O general disse que ia lhe dar licença de seis dias, e o mandaria num veículo do quartel para buscar 3 mil libras sírias (US$ 50) para lhe pagar.

"Estranhei aquilo", lembra Dandash. "Eu não tinha feito nenhum acordo para ter licença. E os oficiais não costumavam pedir dinheiro para dar licença assim na frente de todo mundo. Isso era tratado discretamente." Entrou no carro com dois oficiais. Pararam em frente ao comando da segurança. Saíram do quartel seguidos por um carro de escolta. Dandash concluiu que tinha sido traído e o levariam para algum lugar onde o forçariam a entregar os outros companheiros. Ele não tinha como avisar os amigos que o esperavam no carro com os barris de graxa.

Durante o trajeto, um major ficou segurando sua pistola dentro do paletó. Pararam no terminal de lotações. Dandash desceu do carro. Os militares continuaram parados, observando-o. Ele entrou no terminal, ligou de um telefone público para seus amigos e avisou: "Não me esperem." Pegou um táxi para a universidade, que conhecia melhor que os militares. Eles o seguiram, mas Dandash deu voltas até que o perdessem de vista.

Mais tarde, o general telefonou no seu celular: "Conseguiu fugir, hein?" Dandash respondeu: "Vocês não vão escapar de nós." O sargento foi o primeiro de sua unidade a desertar. Na ordem do dia, o general anunciou que ele seria executado na frente de toda a tropa. Dandash ficou três dias escondido na região de Jisr al-Shoughur. Nesse período, um sargento do grupo lhe telefonou, perguntando onde estava. Ele desconfiou e não respondeu. Ligou mais tarde, e um oficial atendeu o telefone. Dandash reconheceu sua voz. Estavam usando seu colega para localizá-lo. Ele não atendeu mais suas chamadas. O esconderijo das armas foi revelado aos oficiais.

Na noite do dia 12, o sargento fugiu para a fronteira da Turquia com seus parentes, nos dois carros da família. Quando chegaram à fronteira, abandonaram os carros, cruzaram a pé, carregando seu pai nos braços, e embarcaram numa ambulância turca.

O tenente juntou-se depois ao Exército Livre Sírio (ELS). Ele não o tinha traído. "Somos gargantas enfrentando tanques ", define Dandash. À pergunta sobre o que o ELS mais precisa, ele responde: "Foguetes portáteis antitanques e anti-helicópteros. E kits de primeiros socorros."

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