Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Bogotá

31 Maio 2014 | 20h44

BOGOTÁ - Yineth Trujillo fugiu das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 2004, aos 17 anos. Ao pisar em uma cidade, levou o primeiro de uma série de sustos e traumas que marcariam sua adaptação ao restante do mundo. “Quase desmaiei ao ver uma TV. Foi como esbarrar em um extraterrestre.”

Yineth foi criada até os 12 anos num conjunto de 20 casas de madeira e chão batido, sem luz, estrada ou telefone, no Departamento de Caquetá, nas montanhas do centro do país. Deixou os pais quando a guerrilha prometeu treinar as crianças do vilarejo por três meses. Nos cinco anos em que serviu às Farc, esteve em dois combates grandes, nos quais perdeu cinco companheiros. Trocas de tiros eram frequentes, mas sua rotina era basicamente plantar coca, vigiar reféns, cozinhar e montar acampamentos. Segundo ela, a guerrilha já sabe se os sequestrados serão mortos ou devolvidos na hora da captura. Quanto à venda da pasta de coca para financiar a luta, não há dilema moral. “O discurso é: quem cheira e morre são os gringos, não os colombianos”, afirma.

Segundo Yineth, não há distinção de gênero ou idade na distribuição de tarefas. As crianças são adestradas para que qualquer crença em Deus ou saudade da família desapareçam. O treinamento, diz ela, masculiniza física e mentalmente os recrutas. “Você vira um homem mais. Chegar na cidade e colocar salto, brinco, uma saia curta e poder escolher cores é algo novo. Quando fugi, não sabia nem quais cores combinavam”, ressalta.

Ser uma mulher na selva fez diferença quando os companheiros passaram a assediá-la. “Se um homem gosta de uma menina, diz ao comandante ‘camarada, quero passar a noite com ela’. Você pode dizer ‘não quero’. Mas aí o consentimento passa a ser uma ordem. E ocorre algo irônico: se 10 quiserem passar a noite com você, não se pode dizer não ao comandante. No fim do ano, você está numa lista como ‘a prostituta’.”

Yineth tentou dizer não e foi estuprada “várias vezes”. Decidiu então “associar-se” - o equivalente na guerrilha ao casamento. “O chefe chega e diz ‘pronto, vocês agora são sócios’”, lembra. Mesmo sócia, uma mulher pode ser requisitada por um líder. Por isso, ela se uniu logo a um dos comandantes. “Nem simpatizava com ele. Não tinha sangue nas veias, tinha revolução. Mas era a forma de não ser mais estuprada”, afirma. “Ele dizia que gostava de mim, mas que se eu fugisse me mataria de maneira dolorosa.” 

Quando escapou, Yineth não via traço do igualitarismo que defendeu nos primeiros anos de doutrinação. “O comandante, quando ficava doente, era levado para hospitais e até para o exterior. Soldados e reféns morriam sem remédio”, diz. “Pensava: se ele faz isso aqui, imagina se governar toda a Colômbia?” 

Retaliação. Minutos depois de escapar das Farc e “descobrir” a TV, Yineth foi golpeada por policiais. Perdeu o filho que nem sabia que tinha e, nos dias seguintes, teve seis parentes mortos e a mãe sequestrada pela guerrilha, em retaliação. Mudou-se para Bogotá. Nos últimos 10 anos, terminou o ensino médio graças um programa de reintegração de desertores do Estado, cujo principal obstáculo é a discriminação. Yineth interrompeu um curso técnico em contabilidade porque um dos professores recusou-se a graduá-la. “Sofri uma estigmatização tão grande que desenvolvi pânico.” 

A ex-guerrilheira tem duas filhas, de 5 e 9 anos. A mais velha sabe que ela pertenceu a um grupo armado. “Espero que não me julguem. Não falo a ninguém o que aconteceu comigo para protegê-las”, diz.

Na terça-feira, ela entregou em uma universidade documentos para começar o curso de administração pública. “Imagino que a guerrilha matou alguém próximo àquele professor. Lamento, não fui eu. Não quero dizer que sou uma pobrezinha, mas fui vítima também.”

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Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Cúcuta

31 Maio 2014 | 20h35

CÚCUTA - Vegas desertou do Exército de Libertação Nacional (ELN) graças a uma dor de barriga, seis meses após seu recrutamento forçado, em 2008. Ele e 11 guerrilheiros tinham a missão de eliminar um pecuarista que havia atrasado o pagamento da “vacuna”, nome da taxa cobrada dos campesinos por “proteção”. Quando saiu do mato, aliviado da crise intestinal, os companheiros estavam 10 minutos adiante. Colocou o AK-47 nas costas e disse “é agora que saio daqui”.

Quem narra é Marcelino “Vegas” Suárez, de 42 anos. O nome de guerra foi apagado. Não há um Vegas na escola Toledo Plata, no bairro de mesmo nome, periferia mais miserável da pobre Cúcuta, fronteira com a Venezuela. Marcelino “do mototáxi”, o piadista capaz de arrancar gargalhadas de mais de 50 colegas em uma apresentação do Dia das Mães, com poemas e cantigas, todos conhecem. 

O ELN recrutou Vegas depois de rumores de que um militar fingia ser agricultor na região. “Estava arrancando batata quando chegaram quatro pistoleiros. Expliquei que tinha ido ao Exército e saído, que só estava trabalhando. Acharam que eu era um informante”, sustenta. Levado até Walter Sandoval Jeréz, líder do ELN conhecido como “El Canoso” (O Grisalho), iniciou três meses de treino. Virou membro integral. Sua tarefa era extorquir agricultores.

Vegas caminhou quatro dias e quatro noites na fuga. Encontrou um caminhoneiro que transportava gasolina e o obrigou a levá-lo até a base militar mais próxima. Entregou arma e uniforme. 

O combustível contrabandeado da Venezuela é essencial para o ELN, segunda guerrilha da Colômbia, com 3 mil integrantes. Primeiro, para processar a cocaína, sua maior fonte de renda. Mas também pelo que pagam os caminhoneiros para percorrer estradas de terra nas quais o Estado já não se mete. 

O controle sobre a rota da gasolina dá à guerrilha lucro proporcional ao dos contrabandistas - o litro na Venezuela custa R$ 0,03 e na Colômbia, R$ 1,74. Também dá tranquilidade. “Após um combate duro, em que o Exército ataca por ar e por terra, basta ir para a Venezuela. Lá tem refúgio, comida, uniformes e armas. Tem tudo”, afirma. Na escola Toledo Plata, o único que conhece Vegas e parte de sua história é o diretor. “Os colegas não entenderiam. Acho que nem acreditariam”, diz Marcelino. / R.C.

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Criminosos tentam se passar por desertores

Enquanto ex-guerrilheiros e ex-paramilitares tendem a esconder seu passado em grupos armados, a Colômbia discute como evitar que criminosos mintam ter pertencido a organizações como as Farc, o ELN e grupo paramilitares para conseguir as penas brandas associadas à deserção. Nesta semana, a Suprema Corte do país decidiu que um deles, Mejía Múnera, extraditado para os EUA, é um “narcotraficante puro” e por isso não poderia se beneficiar da pena de 8 anos imposta ao líderes paramilitares que desertaram a partir de 2004. Este ano, chefes paramilitares começarão a ser libertados.

31 Maio 2014 | 20h40

Um tema de campanha sobre o qual divergem o presidente Juan Manuel Santos e o opositor Óscar Zuluaga - a eleição será dia 15 - é a punição para líderes das Farc se um acordo de paz for fechado. Zuluaga quer 6 anos de prisão, no mínimo, Santos oferece liberdade e ingresso na política em troca de informação sobre drogas e desaparecidos. / R.C.

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Paramilitar prescinde de amigos

Eveida García, de 31 anos, escapou do grupo paramilitar Autodefesas da Colômbia (AUC) em 2004, após trabalhar ao lado do marido, segurança dos líderes do movimento em Santa Rosa do Sul, município de 30 mil habitantes no Departamento de Bolívar, na fronteira com a Venezuela.

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Cúcuta

31 Maio 2014 | 18h18

Eveida não andava fardada, não vivia em acampamento, nem se encaixava aos outros estereótipos ligados aos grupos armados colombianos. Sabia aprontar uma arma e disparar, mas se dedicava a preparar a comida dos chefes e acompanhar o marido em algumas missões. A mais comum era controlar, nas entradas e saídas da cidade, dinheiro de caminhoneiros que transportavam gasolina contrabandeada da Venezuela. 

“Se não pagassem, era preciso consultar o comando e perguntar o que fazer com a pessoa. Sempre havia que esperar ordens. Eles decidiam. Se tiravam a mercadoria e o liberavam sozinho. Ou se o matavam”, lembra.

Eveida teve dois anos de vida confortável em Santa Rosa, até que o marido usou uma moto do grupo sem autorização e foi punido com um período “no monte” (modo como se referem ao trabalho nas montanhas). Decidiram desertar, aproveitando um acordo feito pelo governo de Álvaro Uribe (2002-2010) com o grupo. 

Ambos vagaram por várias cidades na tentativa de despistar possíveis perseguidores. Os integrantes das AUC que não aceitaram a desmobilização criaram ou aderiram a grupos criminosos. O mais temido é o Las Águilas. “Em geral, foram aqueles que estavam ligados diretamente ao lucro do narcotráfico, a quem não convinha deixar tudo por uma bolsa de até 480 mil pesos (R$ 550 por mês) do governo”, afirma o coordenador do programa de desmobilização em Cúcuta, Tyrone Rodríguez.

Embora soubesse montar e disparar um fuzil, Eveida nunca puxou o gatilho. Ainda assim, adotou a discrição após abandonar o grupo, por saber quem eram os chefes, como chegavam armas e gasolina da Venezuela e como era processada a cocaína nas plantações que tinham sob domínio e financiavam o movimento.

“No meu bairro, ninguém sabe que pertenço ao processo. Muitos perguntam ‘como você consegue se manter sozinha, com as quatro crianças?’ Digo que recebo uma pensão pela morte de meu marido. Não é algo de que eu tenha de me orgulhar. Além disso, já não faço questão de ter amigos.” / R. C.

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