Desertora e espiã exibem as duas faces das Farc

Casos opostos revelam altos e baixos da guerra contra guerrilha colombiana

Chris Kraul, O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2007 | 00h00

Uma rebelde seqüestrou um avião particular para fugir das fileiras das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Outra seria uma espécie de Mata Hari moderna que, antes de ser presa, se havia infiltrado nos mais altos escalões do Exército. A história dessas duas mulheres das Farc concentrou a atenção dos colombianos, mostrando as duas faces do grupo guerrilheiro.Angelly, nome de guerra da primeira rebelde, desiludiu-se com a causa da guerrilha. Já Marilú Ramírez, que em novembro, num tribunal, negou todas as acusações contra ela, ainda é fiel às Farc, segundo as autoridades (ler abaixo mais detalhes sobre ela). As duas mulheres personificam os avanços e retrocessos da luta de mais de 40 anos do governo contra os rebeldes. Segurando seu fuzil Galil, Angelly, de 23 anos, invadiu em setembro um avião que taxiava numa pista em plena selva e ordenou que o piloto a levasse para Villavicencio, perto de Bogotá. Afirmou que sua missão não era de guerra, dizendo que pretendia render-se às autoridades e abandonar as armas. Angelly soube, pelo rádio, dos programas do governo para a desmobilização dos rebeldes. Esses programas oferecem um salário, habitação grátis, cursos de capacitação profissional e perdão para alguns crimes de guerra. O presidente colombiano, Álvaro Uribe, ofereceu concessões similares para os grupos paramilitares de direita.MAUS-TRATOSNão foram os benefícios que fizeram Angelly fugir depois de cinco anos nas fileiras rebeldes, mas a esperança de reunir-se com sua filha de 7 anos, que vivia com a mãe da guerrilheira em Bogotá. Outros motivos foram os mosquitos, o tédio da vida na selva e os maus-tratos por parte de comandantes da guerrilha. "Eles dizem que as mulheres têm direitos iguais, mas não é assim", afirmou Angelly, que não quis revelar o verdadeiro nome, com medo de represálias das Farc. Ela foi entrevistada num escritório do Ministério da Defesa, em Bogotá. "Somos nós que lavamos as roupas e preparamos a comida", assinalou a guerrilheira. "Os comandantes vivem bem, mas os soldados são proibidos de coisas como cerveja e cigarros", acrescentou. "Os chefes podem ter filhos, mas quando engravidei precisei fazer um aborto."Angelly disse que planejava havia um ano e meio fugir da sua unidade, a 16ª Frente das Farc, no Departamento de Vichada, mas a oportunidade só surgiu quando foi enviada, sozinha, para averiguar a chegada de um avião que fazia escala regularmente na isolada cidade de Puerto Príncipe. "Falei para o piloto que não era um seqüestro, mas estava com meu fuzil e disse que não retornaria (para as Farc) porque me matariam", afirmou Angelly com um sorriso.

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