Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

Desertores do Estado Islâmico criam desculpas

Entre os combatentes que se renderam no Iraque em uma semana, maioria dizia ser cozinheiro, burocrata e novato, sem nunca ter visto uma decapitação

Rod Nordland, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2017 | 05h00

DIBIS, IRAQUE - Os prisioneiros foram levados para uma sala de espera em grupos de quatro e receberam ordens de ficar de frente para a parede, o nariz quase tocando o concreto, as mãos amarradas atrás das costas.

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Mais de mil combatentes do Estado Islâmico passaram por essa sala na semana passada, depois de fugir de Hawija, seu baluarte iraquiano prestes a cair. Em vez do martírio, que afirmavam ser o único destino aceitável, eles acabaram voluntariamente aqui, no centro de interrogatório das autoridades curdas no norte do Iraque.

Para um grupo extremista que ganhou reputação por sua ferocidade, com combatentes que sempre diziam preferir o suicídio à rendição, a queda de Hawija é uma importante reviravolta. O grupo sofreu uma série de derrotas humilhantes no Iraque e na Síria, mas o número de soldados que se entregaram a funcionários curdos no centro de Dibis foi excepcional, mesmo nessas condições: mais de mil em uma semana.

A luta por Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, durou nove meses e, em termos comparativos, foram poucos os combatentes do EI que se renderam. Tal Afar caiu em seguida – e mais rápido, em apenas 11 dias. Cerca de 500 combatentes se renderam na ocasião.

O Exército iraquiano expulsou o EI de Hawija em 15 dias, dizendo que foram necessários apenas três dias de combate efetivo para que a maioria dos extremistas pegasse a família e fugisse. De acordo com oficiais curdos, não houve confronto. Eles não fizeram nada além de instalar bombas e armadilhas.

Vista de perto, a pose dos combatentes desaparece. Eles tiveram de descalçar os sapatos, esvaziar os bolsos e tirar o cinto. Quando se viraram para a parede, deu para ver manchas em suas vestes, evidência de que alguns deles não tinham visto banheiro nos últimos dias. Um deles cheirava tão mal que, quando levado para a pequena sala de interrogatório, causou espanto nos que ali esperavam. O interrogador desabotoou o coldre e pôs a mão direita sobre o revólver. Todos ali pareciam ter medo do homem, mesmo que suas mãos estivessem amarradas. Seu cabelo era preto e grosso, na altura dos ombros, e selvagem como o de Medusa, mas seu rosto tinha apenas um restolho de barba no queixo. 

“Olá”, disse um visitante. “Cadê sua barba?” – o EI exige que todos os homens tenham barba completa. “Tenho 21 anos, ainda não consigo ter uma”, ele disse, constrangido.

Muitos combatentes alegaram ter sido apenas cozinheiros ou burocratas. Foram tantos os que afirmaram ter se filiado ao EI apenas um ou dois meses antes que os interrogadores suspeitaram que tivessem sido treinados para dizer isso. Já não se via o desprezo pela opinião do mundo, escancarado em uma sequência de vídeos violentos – muitos deles filmados em Hawija, onde assassinatos, especialmente de prisioneiros curdos, foram corriqueiros durante os três anos de reinado do EI sobre essa cidade árabe sunita.

A maioria dos prisioneiros afirmou nunca ter visto nenhuma decapitação, nem mesmo ouvido falar dessas coisas. No início, o combatente sem barba parecia uma exceção, admitindo, com um tom desafiador, que lutara pelo grupo por dois anos, com outros membros da família. Ele revelou seu nome de imediato: “Maytham Muhammed Mohemin”, disse, quase cuspindo os sons. 

Durante o interrogatório, o homem ficou nervoso. Disse que era de Hawija e se juntou ao EI porque acreditava na causa, seu irmão mais velho já era membro e o salário de US $ 100 por mês era melhor do que qualquer outra coisa.

O wali do EI, governante de Hawija, disse aos homens que se entregassem às forças curdas, conhecidas como peshmerga, para escapar do Exército iraquiano e das milícias xiitas, as famosas Hashed al-Shaabi, treinadas no Irã e conhecidas por matarem não apenas os prisioneiros do EI, mas também suas famílias. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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