Desertores na ficção e na realidade

Livro do romancista Tim O'Brien, veterano do Vietnã, pode ajudar a compreender caso do sargento Bowe Bergdahl

Charles Lane, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2014 | 04h00

Na década de 70, o romancista veterano da guerra do Vietnã, Tim O'Brien, criou o personagem de um soldado impulsivo que, um belo dia, muniu-se de ração, água, mapas e uma bússola e, como diz o escritor num tom mordaz, "abandonou a guerra", dizendo a seus camaradas que iria a Paris.

Going after Cacciato (Perseguindo Cacciato, em tradução livre), romance fantasmagórico de O'Brien sobre a procura do soldado desertor e o seu horrível fim na Cidade Luz, foi uma ampla reflexão sobre coragem e covardia e um dos melhores livros americanos sobre a guerra no Sudeste Asiático, ou qualquer guerra, nesse contexto.

Agora, o Afeganistão ofereceu aos EUA Bowe Bergdahl, que, aparentemente, achou que poderia cruzar o país e ir para o Paquistão na vida real tão facilmente quanto Cacciato na sua ida a Paris na ficção, mas, em vez disto, virou refém do Taleban por cinco anos, até o presidente Barack Obama trocá-lo por cinco integrantes importantes do grupo islâmico na semana passada.

Políticos e analistas lutam para impor um relato do caso que atenda a seus interesses pessoais sobre esse personagem tão estranho quanto a ficção e com uma história também mais estranha do que a ficção. Obama cometeu uma estupidez ao considerar o iminente retorno de Bergdahl como apropriado para as comemorações do Rose Garden, ao lado dos agradecidos pais do sargento, mesmo sabendo, ou devendo saber, que o soldado não é um herói.

Essa tentativa de ganhar votos com uma história boa para um ano eleitoral fracassou redondamente, como também a descrição desinformada por parte da assessora de Segurança Nacional, Susan Rice, da carreira de Bergdahl no Exército, afirmando que era uma carreira de "honra e distinção".

Os esforços da Casa Branca para glorificar Bergdahl se equipararam aos esforços da direita para demonizá-lo. Ele é acusado de deserção, um crime muito grave. Condená-lo por isto com base na legislação militar exige provas, que ainda não há, de que ele tinha intenção de abandonar sua unidade para sempre ou queria não ser encarregado de alguma tarefa arriscada.

Também não está provado, apesar do que você possa ter ouvido, que, ao se ausentar, ele causou direta ou indiretamente a morte de seis soldados que foram à sua procura, embora a busca tenha certamente significado custos e riscos para o Exército e suas tropas. Não se preocupe: de acordo com Bill O'Reilly, da Fox News, "existe prova irrefutável de que o sargento violou a legislação militar e pode até ter colaborado com o inimigo".

Não conheço nenhuma fórmula matemática que determine se a libertação de cinco inimigos perigosos foi um preço muito alto a pagar para ter um soldado de volta, como não consigo imaginar o que os críticos de Obama acham que ele deveria ter feito no caso. Acho que todos nós podemos nos beneficiar da percepção de O'Brien dos absurdos inerentes e dos dilemas morais inextirpáveis da guerra - pelo menos a de que mesmo o mais poderoso Exército é vulnerável às estranhezas mentais dos soldados individualmente.

Assim, há um Bergdahl, como houve também um sargento Charles Robert Jenkins, que abandonou sua unidade na Coreia do Sul, em 1965, e seguiu para a do Norte, achando que o regime norte-coreano o enviaria para a União Soviética, de onde poderia voltar para casa. Os norte-coreanos o prenderam e o usaram como material de propaganda até sua libertação ser negociada em 2004, quando o Exército dos EUA colocou um uniforme nele, o manteve preso por 25 dias e, finalmente, foi expulso por incapacidade moral.

E houve o caso do recruta Eddie Slovik. Ele achou que, se conseguisse se juntar a uma unidade canadense e não à sua, durante seis semanas na 2.ª Guerra, seria uma boa maneira de ser enviado para a prisão e não para a frente de guerra. Seus superiores, envolvidos numa luta sangrenta pela Alemanha, decidiram fazer dele um exemplo. Foi o único americano executado por deserção desde a Guerra Civil dos EUA.

Algum dia seremos capazes de compreender Bergdahl e o que fez no Afeganistão, para onde ele e milhares de outros soldados foram enviados para combater uma guerra com relação à qual seu governo, sob a condução de Obama, foi no melhor dos casos ambivalente.

Claramente, alguns dos companheiros de Bergdahl ainda não estão dispostos a perdoá-lo. Tim O'Brien narra que o melhor amigo de Cacciato no seu pelotão mostrou-se mais compreensivo: "Ele não tinha nada contra Cacciato. A história toda era um absurdo, imatura e uma estupidez, mas não tinha nada contra o rapaz. Foi apenas muito errado. Um desperdício em meio a outros muito maiores".

*Charles Lane é editorialista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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