Atul Loke/NYT
Atul Loke/NYT

‘Desespero da covid’ se espalha por toda a Índia

Infecções, mortes e colapsos que começaram nas grandes cidades há algumas semanas estão avançando rapidamente para as áreas rurais, desencadeando um medo profundo em lugares com pouca rede de segurança médica

Jeffrey Gettleman e Suhasini Raj, The New York Times, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2021 | 05h00

NOVA DÉLHI - Dezenas de corpos, provavelmente de pessoas que morreram de covid-19, surgiram às margens do rio Ganges esta semana.

Estados no sul da Índia ameaçaram parar de compartilhar oxigênio médico entre si, protegendo ferozmente o pouco que têm enquanto em seus hospitais aumentam os números de pacientes infectados com a doença.

E em um hospital em Andhra Pradesh, uma tragédia se repete: pacientes morrem tentando respirar, após o oxigênio vital acabar repentinamente.

O desespero que engolfou Nova Délhi, capital da Índia, nas últimas semanas agora se espalha por todo o país, atingindo Estados e áreas rurais com muito menos recursos. As infecções estão disparando nesses Estados, e especialistas em saúde pública dizem que há uma subnotificação nos registros.

A crise parece estar chegando a uma nova fase. Os casos em Nova Délhi e Mumbai podem estar se estabilizando. Mas muitos outros lugares estão sendo afetados por surtos descontrolados. A Organização Mundial da Saúde afirma agora que uma nova variante do vírus detectada na Índia, B.1.167, pode ser especialmente transmissível, o que aumenta a sensação de alarme.

Todos os dias, a mídia indiana relata turbulência e tristeza. Na terça-feira, foram televisionadas imagens de parentes perturbados batendo furiosamente no peito de entes queridos que morreram depois que o oxigênio acabou, e manchetes incluindo "Corpos de vítimas com suspeita de covid-19 são encontrados flutuando" e "Com as mortes subindo 10 vezes, há sinais preocupantes em Estados menores." 

Esta sempre foi a questão premente: se Nova Délhi, lar da elite do país e de inúmeros hospitais, não pudesse lidar com o aumento de casos de coronavírus de uma nova onda devastadora, o que aconteceria nas áreas rurais mais pobres?

A resposta está chegando.

Na noite de segunda-feira, o Hospital Geral do Governo Sri Venkateswara Ramnarain Ruia, em Andhra Pradesh, tinha pouco oxigênio estocado. Mais de 60 pacientes estavam em estado crítico, com máscaras presas ao rosto. Os médicos ligavam freneticamente para os fornecedores para pedir ajuda.

Mas o oxigênio acabou, matando 11 pessoas. Parentes das vítimas ficaram tão furiosos, disseram funcionários do hospital, que correram para a unidade de terapia intensiva, viraram mesas e quebraram equipamentos. As imagens televisionadas mostraram mulheres segurando a cabeça, dominadas pela dor. Médicos e enfermeiras fugiram até a chegada dos policiais.

A Índia está sofrendo de uma preocupante escassez de oxigênio medicinal e pelo menos 20 outros hospitais estão sem estoques. Quase 200 pacientes morreram por causa disso.

Ao mesmo tempo, a campanha nacional de vacinação começa a enfrentar problemas. O país chegou a administrar mais de três milhões de doses por dia. Agora, aplica cerca de dois milhões no mesmo período, e muitas pessoas não conseguem agendar horário para receber a imunização. Alguns locais estão completamente esgotados, afirmam autoridades.

Tudo isso está levando às mais duras críticas que Narendra Modi, o poderoso primeiro-ministro da Índia, enfrentou desde que assumiu o cargo, há sete anos. Ele foi amplamente acusado de declarar vitória prematura sobre o coronavírus e encorajar seu país a baixar a guarda.

O partido de Modi continua sendo, de longe, a organização política mais poderosa da Índia. Mas a parede sólida que manteve durante a crise pode estar mostrando algumas rachaduras.

Vários legisladores do partido em Uttar Pradesh, o maior Estado da Índia, começaram a reclamar sobre a forma como o governo estadual, controlado por eles, respondeu à pandemia.

“Não há interrupção na pandemia e estamos impotentes vendo nosso próprio povo morrer”, escreveu Lokendra Pratap Singh, um legislador do partido de Modi, em uma carta que rapidamente se tornou viral.

Em todo o país, o quadro continua sombrio, embora as coisas pareçam estar melhorando nas duas maiores cidades da Índia.

Nova Délhi, a capital, relatou 12.481 novas infecções na terça-feira, menos da metade do que foi relatado em 30 de abril. Em Mumbai, a capital comercial da Índia, algo semelhante aconteceu e as pessoas agora se perguntam se o pior já passou. A taxa de testes positivos de Mumbai caiu de cerca de 25% para cerca de 7%.

Hospitais em Délhi que fecharam seus portões no mês passado por causa da falta de suprimentos, deixando pessoas morrendo nas ruas, estão aceitando pacientes novamente. Mas a situação de quem adoece ainda é extremamente precária. Na tarde de terça-feira, um aplicativo de celular mostrava que Nova Délhi, uma metrópole de 20 milhões de habitantes, tinha apenas 62 leitos de unidade de terapia intensiva disponíveis para pacientes com covid-19.

Alguns dos Estados mais afetados estão agora no sul, especialmente Karnataka, lar do centro de tecnologia da Índia, Bangalore. Um trem expresso de oxigênio, parte do esforço do governo de Modi para transportar oxigênio líquido para epicentros de covid-19, chegou a Bangalore na manhã de terça-feira.

Mas o Estado precisa de mais.

Até esta semana, os Estados do sul concordaram em compartilhar suprimentos de oxigênio entre si. Agora, alguns estão argumentando que precisam interromper a cooperação. O Estado de Kerala diz que não pode enviar oxigênio porque precisa de todo o seu suprimento para suas necessidades crescentes. Tamil Nadu, também no sul, afirma que não pode abastecer seu vizinho mais pobre, Andhra Pradesh, onde 11 pessoas morreram devido ao corte de oxigênio na noite de segunda-feira.

“Eu mal posso imaginar o que está acontecendo na Índia rural”, disse Rijo M. John, um economista de saúde em Kerala. John afirma que as áreas rurais não estão realizando muitos testes de covid e que muitas pessoas “podem estar morrendo por falta de tratamento”.

Um presságio particularmente preocupante veio de uma aldeia ribeirinha em Bihar, um Estado rural no norte da Índia. No vilarejo de Chausa, os moradores estavam se sentindo profundamente inquietos depois de descobrir dezenas de corpos que misteriosamente apareceram às margens do Ganges.

Ninguém sabe quem eram essas pessoas ou como seus corpos chegaram lá. Os aldeões os encontraram na noite de segunda-feira. Espectadores atordoados se aglomeraram em torno dos restos mortais, muitos com roupas de cores vivas coladas a eles, flutuando na parte rasa. Imagens dos corpos inchados circularam pela mídia indiana, inquietando inúmeras pessoas.

As autoridades disseram que cerca de 30 corpos foram encontrados. Testemunhas estimam o número em mais de 100.

De vez em quando, dizem os moradores, eles veem um único cadáver flutuando no rio. É parte do costume em que algumas famílias enviam os corpos de seus entes queridos para o Ganges, o rio mais sagrado do hinduísmo, carregado com pedras. Mas as autoridades e residentes em Chausa suspeitam que o número sem precedentes de corpos que encontraram esta semana pertencia a vítimas da covid-19.

“Nunca vi tantos corpos”, disse Arun Kumar Srivastava, médico do governo em Chausa.

Como a covid-19 devastou esta área, Dr. Srivastava disse que tem visto mais e mais pessoas transportando cadáveres, às vezes em seus ombros. “Definitivamente, mais mortes estão acontecendo", ele disse.

Krishna Dutt Mishra, um motorista de ambulância em Chausa, disse que muitas pessoas pobres estavam descartando corpos no rio porque, desde a segunda onda de covid, o preço das cremações subiu de 2 mil rúpias, cerca de US$ 27, para 15 mil rúpias, cerca de US$ 200, valor que para a maioria das famílias é alto demais.

Isso se tornou um problema em toda a Índia. As mortes por covid-19 sobrecarregaram os campos de cremação, e alguns trabalhadores inescrupulosos estão cobrando cinco ou até dez vezes o preço normal pelos últimos ritos.

“Eu dirigi todo o trecho de Buxar a Chausa”, disse Mishra, referindo-se a outra cidade um pouco mais a leste. “Nunca vi nem mesmo alguns corpos, muito menos tantos deles, alinhados no rio, em todo este trecho.”

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