Desespero paraguaio

Quando Fernando Lugo tornou-se presidente, em 2008, os paraguaios comemoraram. Ex-padre, sua ascensão foi sinal de um marco na vida pública do país. Afinal, com sua posse, findou-se uma dinastia dos colorados, partido que mandara no Paraguai como se fosse uma fazenda particular durante seis décadas. Questionador, admirado por gente humilde, Lugo falou em saldar uma dívida social. Sua prioridade: reforma agrária, para dividir o bolo mal partido de riquezas e de terras. Agora, repentinamente desempossado, Lugo colhe o que plantou.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h03

Semanas atrás, o movimento sem-terra paraguaio invadiu uma fazenda no Departamento (Estado) de Canindeyú, na fronteira com o Brasil. A propriedade teria sido grilada décadas atrás por protegidos dos caciques colorados e, portanto, passível de ação popular. A Justiça reagiu e decidiu pela reintegração de posse. No dia 15, mandou retirar os ocupantes, que resistiram. O saldo foi de 17 mortos e a pior crise política do Paraguai em muitos anos, que culminou na destituição do presidente por impeachment. Mas está longe de terminar.

Lugo, evidentemente, não encomendou a invasão, muito menos deu a ordem para que os sem-terra resistissem à bala. No entanto, lhes ofereceu argumentos e a vista grossa, criando um poderoso subsídio oficial para os insurgentes, que se travestiram da Justiça para agir como justiceiros. Da mesma forma, o julgamento relâmpago contra o líder paraguaio - orquestrado na calada da noite por seus desafetos políticos - carece de legitimidade por atropelar o pleno direito de defesa garantido pela Constituição.

De golpe em golpe, os paraguaios seguem sem rumo certo e ameaça devolvê-los aos tempos de arbítrio e convulsão social que todos imaginavam ultrapassados. A crise sacudiu toda a América Latina. Enquanto populares e governistas tomam as ruas de Assunção em desagravo ao presidente destituído, a cúpula da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) articula uma resposta. "Tudo o que ocorre no Paraguai transcende as suas fronteiras", afirmou Alí Rodríguez, presidente da organização.

Ele tem toda razão. Mas como reagir à crise paraguaia? Dilma Rousseff fala em possíveis sanções. A expulsão do Mercosul parece certa. Mas o histórico da diplomacia latino-americana levanta dúvidas. De um lado, os líderes regionais não titubeiam frente a ameaças contra governantes de esquerda. Todos repudiaram o golpe de 2002, que brevemente destituiu Hugo Chávez do poder na Venezuela, e ninguém se calou em 2009, quando as Forças Armadas hondurenhas tiraram da cama o presidente Manuel Zelaya e o mandaram embora do país ainda de pijama.

Mas, quando o atentado à democracia vem da esquerda, o enredo é outro. Assim, não houve protestos quando Hugo Chávez retalhou o mapa eleitoral nas eleições parlamentares de 2010 para garantir-lhe o domínio do Congresso, mesmo quando perdeu a maioria dos votos. E nenhum chefe de Estado latino levantou sua voz quando Zelaya articulava para esticar seu mandato, afrontando o Congresso, a Suprema Corte e a Constituição.

Foi o presidente do Equador, Rafael Correa, quem diria, que melhor definiu a ameaça do novo autoritarismo latino-americano. "Há coisas que são legais, mas não são legítimas", disse à imprensa ao fim da Conferência Rio+20 sobre o caso Lugo. Logo Correa, que lançou mão de juízes "companheiros" para calar críticos e a imprensa.

O Parlamento paraguaio tem todo o direito de remover um presidente por desgoverno. Já armar um tribunal às pressas e julgar em algumas horas o destino de um presidente eleito sugere desespero, não democracia. Imagina-se que os enviados da Unasul possam traçar a diferença - onde quer que seja a crise. 

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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