Desespero pauta campanha no Haiti

Em uma semana, sobreviventes de guerra civil, terremoto, furacão e cólera decidirão quem assume o país mais pobre das Américas

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

Poucos haitianos - além dos próprios candidatos - acreditam que a eleição do dia 28 evitará a falência de um país arrasado por anos de guerra civil, por um violento terremoto e uma epidemia de cólera que, um mês antes da votação, deixou quase 50 mil hospitalizados e mais de mil mortos. Mas todos os eleitores têm certeza de que, se essas eleições falharem, pode não haver uma segunda chance de o Haiti se reconstruir.

O país é chamado hoje nos meios diplomáticos e humanitários de "república das ONGs". Desde 2004, a Organização das Nações Unidas (ONU) mantém no Estado mais pobre das Américas um contingente militar que hoje chega a 8.640 capacetes-azuis, além de um incontável número de funcionários civis de quase todas as agências de assistência humanitária existentes no mundo.

Ao presidente haitiano - o atual e o que for eleito - caberá pouco mais que receber as críticas por não estruturar um plano de reconstrução que convença os doadores internacionais a liberar os US$ 9 bilhões prometidos até agora. "Corrupto" e "incompetente" têm sido os dois adjetivos mais frequentemente associados ao governo haitiano, apesar dos afagos públicos feitos por todos os chefes de Estado nas conferências internacionais de doadores.

Mesmo diante de um cenário tão catastrófico, 19 políticos inscreveram-se para concorrer na eleição. Além do cargo de presidente - que administrará um país onde quase 2 milhões de pessoas vivem em lonas plásticas até onde a vista alcança -, 10 senadores e 89 deputados também ocuparão seus lugares no novo Congresso.

Ninguém tem mais de 25% das intenções de voto. Estima-se que Sabine Manigat lidere com 23%. Em seguida, estaria o candidato apoiado pelo presidente René Préval, Jude Célestin, com 21%. Mas a credibilidade das pesquisas é questionável e a decisão só deve sair no segundo turno, marcado para 16 de janeiro.

"Aqui no Haiti, os últimos 50 anos foram divididos assim: 25 anos de estabilidade sob ditadura e outros 25 de busca por democracia com estabilidade. O desafio, agora, será conjugar esses dois elementos", disse ao Estado o presidente René Préval, no início da campanha eleitoral, em maio.

O primeiro desafio será o de levar o povo às urnas. A Igreja prevê uma participação de apenas 15% dos eleitores. Para a Organização dos Estados Americanos (OEA), a taxa pode ficar em torno dos 45% - um êxito, considerando que o país vive uma epidemia de cólera e a aglomeração de pessoas favorece a transmissão da doença.

O terremoto de janeiro destruiu 40% dos locais de votação. Quase 150 mil eleitores perderam seus títulos eleitorais. Amanhã, chega a capital, Porto Príncipe, um voo da American Airlines levando as novas cédulas, impressas pela OEA em Nova York. É uma corrida contra o tempo, marcada por percalços mórbidos. O maior deles é o fato de nenhum órgão eleitoral conseguir depurar as listas, retirando o nome de tanta gente morta todos os dias. Para driblar o problema, o governo adotou uma solução drástica - deduzirá 7% sobre o total de votos válidos para compensar automaticamente a taxa de mortalidade padrão e formar o quociente eleitoral.

Semana passada, as manifestações de rua que marcaram as últimas eleições voltaram a causar tumultos, confrontos com a polícia e correrias na capital. "Acho que será tranquilo, mas fizemos exercícios militares prevendo todos os cenários. Estamos preparados para tudo", disse o general brasileiro Paul Cruz, comandante do braço militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah).

Pedido de adiamento. Quatro dos 19 candidatos à presidência do Haiti pediram ontem que a votação seja adiada. "Pedimos às autoridades que adiem a data das eleições, estabeleçam e publiquem um plano de luta contra a epidemia de cólera que ameaça a vida de todos os haitianos", declararam Josette Bijou, Gérard Blot, Garaudy Laguerre e Wilson Jeudy, que, segundo as pesquisas, estão mal colocados na corrida eleitoral. Os candidatos pediram ainda a criação de uma comissão que investigue a origem do surto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.