Emidio Jozine/REUTERS
Emidio Jozine/REUTERS

Desigualdade e corrupção na África dão armas ao Estado Islâmico

Organização vem se aliando a grupos insurgentes no continente e se aproveitando dos crescentes ataques para mostrar que está viva

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2021 | 04h00

MAPUTO, Moçambique - O autodeclarado califado do Estado Islâmico foi destruído, seus combatentes se dispersaram e seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, foi morto. Mas, dois anos após sofrer derrotas na Síria e no Iraque, o EI encontrou uma tábua de salvação na África, onde, segundo analistas, vem forjando alianças com milícias locais numa relação simbiótica que tem melhorado sua imagem, permitido levantar recursos e recrutar combatentes.

Muitos dos grupos insurgentes locais mantêm uma relação vaga com o EI. Mas, no ano passado, à medida que a violência dos extremistas na África atingiu níveis recorde, o grupo vem proclamando essas vitórias para projetar uma imagem de força e inspirar seus seguidores pelo mundo.

Na semana passada, o EI reivindicou um ataque devastador no norte de Moçambique, onde militantes com vínculos distantes com a organização terrorista realizaram uma investida contra uma cidade portuária que matou dezenas de pessoas. O ataque provocou discussões nos fóruns online do Estado Islâmico sobre um novo califado ali, segundo pesquisadores.

“Como uma organização mais ampla, o EI vem provocando danos”, disse Colin Clarke, analista de contraterrorismo do Soufan Group, empresa de consultoria de segurança com sede em Nova York. “Para levantar o moral dos seus seguidores, a liderança do grupo vem exaltando as células regionais, mostrando-as como as mais promissoras em lançar ataques e manter um robusto ritmo operacional.”

O cerco de Palma, cidade moçambicana atacada, foi o mais ousado já realizado pela insurgência local e se insere no aumento alarmante de confrontos brutais envolvendo extremistas islâmicos na África. A violência desses grupos aumentou 43% em 2020, em relação a 2019, segundo o Africa Center for Strategic Studies, do Departamento de Defesa dos EUA. Nos últimos dias, dezenas de milhares de pessoas que fugiram do ataque chegaram a províncias vizinhas e descreveram cenas de uma violência devastadora.

Fuga

Ricardo Elias Dário, que trabalhava na cidade como operador de equipamento pesado, ouviu a troca de tiros de dentro de sua casa. Em questão de segundos, correu com um amigo, Benefica Taou, na direção de uma mata para se esconderem. Na fuga, seu amigo foi atingido por uma bala perdida e caiu no chão. Dário conseguiu escapar. “Eles atiravam para todos lados, contra qualquer pessoa, até cachorros”, afirmou, em entrevista por telefone. 

Durante mais de uma década, autoridades militares e da área de contraterrorismo dos EUA vêm alertando que a África estava prestes a se tornar a próxima fronteira para organizações terroristas internacionais como a Al-Qaeda e o EI. Nos últimos anos, as duas organizações criaram alianças com jihadistas locais e estabeleceram novas bases nas áreas ocidental, norte e central da África para, a partir dali, realizarem ataques em larga escala, segundo especialistas nos EUA e na Europa.

Mais recentemente, as autoridades alertaram que, mesmo enfraquecido, o EI continua uma organização coesa no Iraque e na Síria, com cerca de 10 mil combatentes que atuam clandestinamente. Embora as derrotas e o coronavírus tenham reduzido sua propaganda online e as operações de recrutamento, o grupo ainda conta com um orçamento de US$ 100 milhões e uma rede global de células fora do Oriente Médio, que vai das Filipinas ao Afeganistão. 

O EI fez alianças com muitos desses grupos insurgentes da África, onde a insatisfação contra governos corruptos e as forças de segurança locais, sem equipamentos, fez surgir vários grupos armados. Para os militantes, a marca do EI lhes confere legitimidade. Os terroristas, por sua vez, podem difundir os ataques dos militantes como prova de que a jihad global está mais viva do que nunca. / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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