REUTERS/Carlos Barria
REUTERS/Carlos Barria

Desigualdade racial em Minneapolis é uma das maiores dos EUA

Os negros ganham muito menos que os brancos na cidade e são uma minoria entre os proprietários de imóveis

Christopher Ingraham / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2020 | 05h00

A atual turbulência em Minneapolis foi desencadeada pelo assassinato de George Floyd, um cidadão negro suspeito de passar uma nota falsa de US $ 20. Mas a raiva e o desespero dos manifestantes jogam luz sobre um descontentamento que vem sendo gestado há muito tempo: a cidade conhecida como um dos lugares mais agradáveis dos EUA também é cenário de algumas das maiores disparidades raciais do país. Em Minneapolis, uma família negra ganha por ano menos da metade do que uma família branca, em média. E a propriedade de imóveis entre negros é três vezes menor que entre as famílias brancas.

Como resultado, muitas famílias negras foram efetivamente excluídas da prosperidade de que desfruta a população predominantemente branca da cidade.

Cada família negra de Minneapolis ganhou, em média, US$ 36 mil em 2018, segundo dados do Departamento do Censo dos EUA. Embora esse número seja melhor que o das famílias negras de muitas outras áreas metropolitanas do país, está muito longe dos quase US$ 83 mil que uma família branca ganha em média na cidade. Em termos porcentuais, a renda da família negra chega a apenas 44% dos ganhos médios da família branca. 

A diferença de renda entre lares de Minneapolis se reflete nos dados sobre a riqueza – nesse caso, nas taxas de propriedade de imóveis, pois as casas são o principal componente da riqueza da classe média. Aproximadamente 25% das famílias negras de Minneapolis possui casa própria, uma das taxas de propriedade de imóveis entre negros mais baixas dos EUA. 

As raízes dessas disparidades são profundas: na primeira metade do século 20, por exemplo, as transações imobiliárias em muitos bairros de Minneapolis estavam condicionadas a disposições que reservavam o direito de propriedade às famílias brancas. “As referidas instalações nunca serão vendidas, cedidas, arrendadas, sublocadas ou ocupadas por qualquer pessoa ou pessoas cujo sangue não seja integralmente da chamada raça caucasiana ou branca”, estabelece uma dessas disposições.

Antes desses contratos, “Minneapolis não era particularmente segregada”, segundo os autores do projeto Mapping Prejudice (algo como Mapa do Preconceito, em tradução livre) da Universidade de Minnesota. Mas, “à medida que se disseminou o uso de cláusulas racialmente restritivas, os negros foram empurrados para determinados bairros da cidade. E, mesmo com o número de habitantes negros continuando a crescer, faixas cada vez maiores da cidade ficaram totalmente brancas”.

Embora não sejam mais aplicáveis, esses contratos até hoje continuam moldando os padrões de assentamento nas Cidades Gêmeas (como é chamada a região metropolitana de Minneapolis e Saint Paul).

As comunidades negras da cidade também sofreram outras formas de repressão. Nas décadas de 50 e 60, os planejadores urbanos devastaram o bairro de Rondo, historicamente de negros, transformando sua principal avenida na rodovia Interestadual 94. “Um em cada oito negros de Saint Paul perdeu sua casa para a I-94”, segundo a Sociedade Histórica de Minnesota, e “muitos negócios nunca mais reabriram”.

“Se as crescentes disparidades em educação, economia e justiça criminal não forem enfrentadas imediatamente, nossos filhos não terão futuro”, alertou a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor em um relatório de dezembro de 2019. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.