Eric BARADAT/ AFP
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Desiludido com Clinton, Michigan faz as pazes com os democratas

Tradicionalmente eleitor de candidatos democratas, Michigan foi primordial para levar Trump a Washington em 2016; quatro anos depois, Biden ganhou o estado por mais de 70 mil votos

José Augusto Amorim, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 19h12

MICHIGAN - O analista John Thomas, de 25 anos, votou no presidente Donald Trump em 2016 e estava decidido a votar no ex-presidente Joe Biden em 2020. Apesar de gostar da política econômica de Trump – especialmente de suas indicações para secretaria do Tesouro e presidência do Fed (o Sistema de Reserva Federal) – e de ir contra a China, Thomas não gostou de como Trump lidou com a pandemia do novo coronavírus, muito menos de seu comportamento no primeiro debate presidencial.

Porém Biden se recusou a dizer que não aumentaria o número de juízes na Suprema Corte, e o analista votou antecipadamente em Trump. Duas semanas depois, ele se arrepende. “Se eu tivesse esperado até 3 de novembro, teria mudado meu voto”, confessa. Seu maior motivo foi a falta de comprometimento de Trump por uma transição pacífica do mandato caso perdesse as eleições. “Fico feliz que Biden deva ganhar a eleição e, principalmente, que o vencedor terá ganhado o voto popular.”

Como Thomas, milhares de eleitores em Michigan não estavam felizes com o presidente. Em 2016, Trump ganhou as eleições em Michigan por uma margem de apenas 10.704 votos – ou, em média, dois votos por zona eleitoral. Tradicionalmente eleitor de candidatos democratas, Michigan foi primordial para levar Trump a Washington.

Porém, quatro anos depois, Biden ganhou o estado por mais de 70 mil votos. Não que 70 mil pessoas tenham mudado de partido, mas é preciso voltar a 2016 para entender a mudança. Nas eleições passadas, uma das maiores surpresas foi o condado de Macomb, nos arredores de Detroit. Com um eleitorado formado principalmente por trabalhadores, Macomb se identificou com o discurso de Trump contra acordos comerciais que levaram ao fechamento de fábricas.

“Por outro lado, Hillary Clinton não tinha nenhum apelo para esse eleitor”, lembra Jonathan Hanson, professor de política pública na Universidade de Michigan. Até mesmo eleitores democratas preferiram não votar a votar nela, mas eles voltaram às urnas em 2020. Em 2016, mais de 275 mil votos foram para outros candidatos que não Trump ou Clinton, número que despencou para 88 mil neste ano.

No condado de Wayne, onde fica Detroit, os números para os democratas melhoraram neste ano. Em 2012, Barack Obama teve 595,253 votos no condado, mas Clinton teve 519,444 votos. Biden ganhou com 587,074 votos – os números deste ano ainda podem sofrer pequenas variações.

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Se Macomb foi a surpresa de 2016, neste ano foi Kent o condado que surpreendeu. Lá fica Grand Rapids, a segunda maior cidade do estado e tradicionalmente um bastião republicano. Foi lá onde cresceu o presidente Gerald Ford (1974-1977). A família da atual secretária de Educação do governo Trump, Betsy DeVos, também é da região. Obama ganhou em 2008, mas perdeu em 2012. Trump ganhou em 2016 por 9.497 votos, mas perdeu por mais de 21 mil votos em 2020.

O professor Hanson fez uma rápida análise sobre os resultados de Kent deste ano. “A margem de Trump caiu em quase todas as zonas eleitorais. Em 219 delas, Trump teve um desempenho inferior ao de 2016. Se ele ganhou em 2016, ou ele perdeu ou ele ganhou por uma margem menor neste ano. Se ele perdeu em 2016, ele perdeu ainda mais agora. Seu desempenho melhorou em apenas 28 zonas.”

Por outro lado, o candidato republicano ao Senado, John James, ganhou em Kent, mas perdeu no estado. Mas ele se saiu melhor que Trump: 72 mil eleitores que votaram em Biden não votaram no senador democrata Gary Peters, que acabou reeleito.

Para Hanson, eleitores cansados de Trump votaram em James para “balancear” a política. Thomas, o arrependido eleitor de Trump, teria mudado seu voto para presidente, mas não para senador. “Sempre votei no partido republicano.”

“Michigan voltou a ser confiavelmente democrata”, afirma Hanson. Em 2018, o estado elegeu uma governadora democrata depois de oito anos sendo governado por um republicano e agora deu a vitória a Biden. Mas Michigan tem 83 condados: Biden ganhou em 10 deles, e a margem de Trump cresceu nos condados menores.

“A mensagem de Trump contra a multicultural e cada vez mais diversa sociedade que os Estados Unidos estão se tornando encontra espaço nas áreas mais rurais”, aponta Hanson. Além disso, a mensagem de que Biden destruiria o país pode ter ajudado Trump nessas remotas regiões, mas não nas áreas urbanas. E, no fim das contas, são elas que decidem as eleições.

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