REUTERS/Alan Ortega
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Desilusão com Justiça no México ajuda esquerdista 

López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México, parece ter escapado da revolta com a corrupção, que levou à deterioração da economia

Cristiano Dias, Enviado Especial / Cidade do México , O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 05h00

Maior nome da esquerda mexicana, Andrés Manuel López Obrador tentou ser presidente em 2006 e 2012. Perdeu. Agora, todas as pesquisas apontam que ele é favorito para vencer as eleições deste domingo, 1º. Um dos fatores decisivos para Obrador ter se tornado um candidato aparentemente imbatível é um país exaurido pela corrupção, tema que dominou a campanha, ao lado da violência.

Nas ruas, nos bares ou na fila para comprar taco do ambulante na porta do metrô, toda conversa resvala na mesma cantilena: se não houvesse corrupção, o México seria um país rico. Até empresários e políticos críticos a Obrador admitem a frustração e reconhecem que ele soube transformar a insatisfação popular em votos.

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Horas depois de o México se classificar para as oitavas de final da Copa do Mundo, Hernández Medina vendia camisas da seleção na Rua Gênova, na Zona Rosa, área nobre da capital. Até bem pouco tempo, ele trabalhava em armazéns de estocagem de alimentos. Há cinco anos, porém, a família do dono da empresa passou a ser ameaçada por bandidos. O patrão vendeu tudo e se mudou para os EUA. Medina perdeu o empregou e hoje se vira no mercado informal.

“Esta conversa de reformas econômicas e ajustes de gastos, tudo isso é uma maneira que o governo encontrou de desviar o assunto. O problema do México é a corrupção. Se resolvermos esta questão, o país melhora”, disse Medina, repetindo praticamente o mesmo discurso de seu candidato, Obrador. 

Érica Flores vende bugigangas em um mercado de Coyoacán, no sul da capital. Ela garante que não tem candidato, mas pensa do mesmo jeito. “O México é o país mais corrupto do mundo. Nenhum candidato vai resolver esse problema.” 

Apesar de ter sido prefeito da Cidade do México, de 2000 a 2005, Obrador parece ter escapado ileso da revolta geral. Para isso, as duas derrotas em disputas presidenciais ajudaram. Em 2006, ele perdeu para Felipe Calderón, do Partido da Ação Nacional (PAN). Em 2012, para Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Nas últimas duas décadas, sob governos de PAN e PRI, a economia se deteriorou. O peso perdeu quase 50% de valor nos últimos seis anos. A inflação chegou a 6,77% em 2017 e ameaça escapar do controle. A desigualdade também aumentou. Hoje, segundo dados oficiais, os 10% mais pobres têm 1,36% da renda, enquanto os 10% mais ricos ficam com 36%. A economia informal, que sustenta as famílias de Medina e de Erica, representa 26% do PIB mexicano e quase 60% de toda mão de obra ativa. 

Os indicadores, apesar de ruins, são solenemente ignorados diante do mal-estar coletivo causado pela corrupção. O Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi) estima que apenas as propinas para escapar de multas e tirar documentos em órgãos públicos custem ao país 0,4% do PIB. 

O FMI calcula que o prejuízo pode chegar a 2%. Obrador fala em 9%, o que seria 20% do orçamento nacional. “O governo do PRI está a ponto de tomar uma surra nas urnas por uma única razão: a corrupção acabou com a pouca legitimidade que ainda tinha o Estado”, disse o empresário Claudio González Guajardo, presidente da organização Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade.

É possível. De acordo com relatório As Pessoas e a Corrupção, publicado em 2017 pela Transparência Internacional, 51% dos mexicanos disseram ter pago algum tipo de suborno para servidores públicos nos últimos 12 meses. Além disso, 60% dos empresários do país consideram a corrupção parte dos custos fixos de um negócio e 40% das empresas admitem já ter aceitado propina. 

O que facilita a proliferação da corrupção é a impunidade. Menos de 20% dos casos chegam ao Judiciário. Segundo estudo feito pela Universidad de las Américas Puebla, apenas 5 em cada 100 delitos cometidos no México são denunciados. Destes, 12% são investigados e terminam em alguma decisão judicial, o que significa que a impunidade chega a 99,3%. 

Este cenário ajuda a explicar por que o país não abriu investigação sobre o escândalo da Odebrecht. Segundo o ex-diretor da empreiteira no México, Luis Alberto de Meneses Weyll, a empresa pagou US$ 10,5 milhões para a campanha do presidente Enrique Peña Nieto, em 2012. 

“O Judiciário mexicano está subordinado ao interesse do Executivo, por isso é impossível que abram alguma investigação”, disse Carlos Flores Pérez, do Centro de Pesquisas e Estudos de Antropologia Social. Segundo ele, a indisposição do eleitorado foi implacável com Ricardo Anaya, candidato do PAN, e José Antonio Meade, do PRI, que não devem evitar a terceira derrota de um político que, mesmo com mais de 30 anos de carreira, é visto pela maioria como alguém de fora do establishment.

 

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