Martin Bernetti/AFP
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Desilusão de chilenos com a política se agrava

Bachelet e Congresso tentam em vão recuperar aprovação, um ano após escândalos; partidos perdem espaço a 7 meses de eleições municipais

Rodrigo Cavalheiro, ENVIADO ESPECIAL / SANTIAGO, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

SANTIAGO - Escândalos que colocaram tanto a presidente Michelle Bachelet quanto a oposição chilena contra as cordas há um ano deixaram uma cicatriz que já é razão de estudo, por não diminuir. A aprovação da líder do Executivo, que no começo do mandato há dois anos era de 54%, se fixou abaixo de 30% há 10 meses, segundo a consultoria Adimark. A do Congresso, que estava na faixa dos 40% em março de 2014, beira os 10% há 12 meses. 

A descrença nas instituições e em quem as representa é acompanhada de uma indignação abafada. Não há em Santiago manifestações multitudinárias contra a corrupção, panelaços pedindo renúncia. Os protestos ocorrem em voz baixa e permanente. 

Acostumados a uma dualidade política levada ao extremo nos anos de ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), chilenos de direita e esquerda dão agora depoimentos homogêneos de desilusão política. “A corrupção vira um tema quando a economia vai mal, como no Brasil. Quando andava bem, ninguém se preocupava com corrupção ou isso preocupava menos. O Chile cresce pouco, mas cresce. Quando começar a crise, essa passividade pode mudar”, avalia o cientista político Patricio Navia, da Universidade de Nova York.

Nem mesmo a ex-candidata presidencial Roxana Miranda, líder comunitária que se tornou nacionalmente conhecida por criticar todos os partidos tradicionais na eleição de 2013, livrou-se do descrédito geral. Ela trabalha para criar uma nova legenda antissistema que possa colocar representantes na disputa das votações municipais de outubro e nas gerais de 2017. 

“O descontentamento não é acompanhado de caos porque o governo tem aumentado os subsídios com programas sociais. Na hora que a conta não fechar e faltar comida, haverá confusão”, disse ao Estado a costureira. Apelidada de “Roxana do Povo”, ela vive em um subúrbio de Santiago, numa cômoda casa de classe média, cujas prestações mensais, equivalentes a R$ 480, deixou de pagar por considerar abusivas. Sua bandeira principal é luta por moradia.

Roxana teve 81 mil votos e ficou em sétimo numa disputa vencida no segundo turno por Bachelet contra a conservadora Evelyn Matthei (62% ante 37%). Analistas apostavam que a diferença e o número de parlamentares conseguidos pela coalizão de centro-esquerda de Bachelet lhe permitiriam concretizar as reformas fiscal, educacional, trabalhista e constitucional que propunha. A crise política e a economia em baixa a levaram a aceitar transformações parciais nas três primeiras – o acesso universitário gratuito, por exemplo, será só para famílias de baixa renda.

As dificuldades da presidente começaram em 2014 com a queda no preço do cobre. O caso que definitivamente a comprometeu envolveu há um ano seu primogênito, Sebastián Dávalos, que comandava a área de transparência do governo. Ele é investigado por especulação imobiliária e tráfico de influência. Bachelet sofre ataques moderados porque falta à oposição autoridade moral. O caso Penta, de financiamento irregular de políticos, afetou sobretudo a direita e levou empresários à prisão. “A pouca identificação atual com partidos permite a aparição legendas novas, mas também de candidatos populistas com soluções rápidas que comprometerão a credibilidade do sistema”, pondera Navia.

3 perguntas para:

Eugenio Tironi, analista político

1. A falta de esperança na política supera ideologias no Chile, isso é perigoso?

A população está farta da elite, de esquerda ou direita, econômica ou política, do governo ou da oposição, como em outras partes do mundo. Mas a intensidade desse fenômeno no Chile é nova, é perigoso.

2. Que se deve esperar da participação na eleição municipal de outubro?

A estimativa é que a participação será muito baixa e deve se manter a correlação de forças atual. A revolta hoje se expressa nas redes sociais e no trabalho de humoristas, mas não nas ruas. 

3. Está aberto o espaço para um líder novo, carismático e populista?

Em teoria sim, mas não se enxerga um nome. Quem funciona como barreira a essa tentação é o ex-presidente Ricardo Lagos, a quem se apela como se fosse um “pai da pátria”, acima das ideologias.


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