AFP PHOTO / Pablo VERA
AFP PHOTO / Pablo VERA

Desilusão fará mais da metade dos eleitores ficar em casa

Reformas política e tributária de Bachelet são os principais temas que serão julgados nas urnas

Pablo Pereira, Enviado Especial / Santiago, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2017 | 05h00

A expectativa de comparecimento dos chilenos nas eleições deste domingo é de cerca de 6,5 milhões de eleitores. De acordo com analistas e autoridades do Chile, devem votar entre 45% e 48% dos mais de 14 milhões de inscritos. O voto não é obrigatório no país. 

Para a contadora Maria Gutiérrez, que trabalha na região de prédios de alto padrão na capital, Santiago, há muita gente sem interesse pela política por desilusão com os políticos.

+ Piñera, o bilionário que pode reconduzir a direita ao poder no Chile

Eleitora de Sebastián Piñera, ela confirma que vai votar neste domingo. Reunida em um grupo que conversava na hora do almoço, na sexta-feira, com colegas diante do prédio onde trabalham, Maria ouviu a engenheira Rosa Balero declarar que é uma das pessoas que não pretende votar. 

Ao ouvir de Priscila Barrionuevo e Daniela Arenas, que pretendem comparecer, Rosa corrigiu: “Na verdade, ainda não decidi”. Segundo Priscila, a política chilena está “muito nos extremos”, ou é Piñera, de direita, ou Bachelet, de esquerda. “A classe média, que trabalha e paga impostos, não se vê contemplada”, argumenta.

Para um economista, ex-militante do Partido Socialista, que pediu “anonimato”, o Chile “é um país sem cultura cívica”. Ele diz que conhece “um estudo” segundo o qual, na faixa dos 18 a 30 anos, o eleitor rico tem comparecimento de 47%, enquanto na periferia, na mesma faixa etária, o porcentual cai para 7%. Para ele, a nova lei eleitoral, do voto facultativo, aprofundou o quadro de desinteresse pela política. “Eu vou votar”, disse. “Em (Alejandro) Guillier.”

Reformas. Entre os principais temas em julgamento nestas eleições estão pelo menos duas grandes reformas feitas no governo de Michelle Bachelet. A reforma política, que alterou a representação popular no Congresso, aumentando o número de cadeiras no Senado de 38 para 50, e na Câmara, de 120 para 155 deputados, e estabeleceu cotas de candidaturas femininas no Legislativo, mínimo de 40% das vagas, e a reforma tributária, que cobra mais impostos das empresas. Bachelet subiu de 20% para 25% a cobrança. Com isso, o governo capta mais recursos para sustentar seu programa de financiamento da educação.

No entanto, pelo menos mais uma questão toca diretamente no bolso dos chilenos e preocupa a população. É o sistema de aposentadorias, que desde a década de 80 é privado, e não foi alterado, uma das promessas da presidente. O sistema chileno funciona com fundos privados, em que cada trabalhador investe cotas e faz a própria reserva para a aposentadoria. O problema principal é que, agora, quando vão usar o dinheiro, as retiradas não atendem as expectativas. 

O pai da privatização da previdência chilena foi o ex-ministro do Trabalho do ditador Augusto Pinochet, o economista José Piñera, irmão do atual candidato à presidência, que agora lidera as pesquisas e acredita que pode vencer no primeiro turno. Alejandro Guillier, apoiado por parte do governo da presidente Bachelet, espera levar a disputa para o segundo turno.

Para Oliver Stuenkel, doutor em ciência política pela Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, a baixa participação dos jovens nas eleições chilenas é resultado de um desgaste da classe política. “O eleitor jovem não se reconhece nos políticos. Isso acaba aparecendo na eleição.”

Segundo Stuenkel, de forma geral, há uma grande desconfiança entre o eleitorado, pois os chilenos lembram das promessas dos políticos, o que não ocorre em outros países, como no Brasil, e Bachelet não cumpriu várias delas, como a reforma da Constituição e a reforma do sistema de aposentadorias.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.