REUTERS/Yuri Kadobnov
REUTERS/Yuri Kadobnov

Desinteresse de Trump abre espaço para Putin na América Latina 

Afastamento dos EUA favorece Rússia, que usa influência para vender armas e se consolidar no setor de energia

THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2019 | 05h00

CARACAS - A retórica de Donald Trump e seu desinteresse pela América Latina deixaram um vazio que a Rússia procura preencher. Em dezembro, Nicolás Maduro foi a Moscou e voltou com investimentos de US$ 5 bilhões para melhorar a produção de petróleo – grande parte da qual vai para os próprios russos. Contratos separados foram assinados para abastecer a Venezuela com 600 mil toneladas de trigo e para modernizar seu arsenal militar.

Maduro descreveu Rússia e Venezuela, ambas sob sanções dos EUA, como “camaradas na luta contra a hegemonia americana” que lideram a investida em direção a um novo “mundo multipolar”. A seu lado, o presidente Vladimir Putin imediatamente condenou qualquer “tentativa de mudar pela força” o regime venezuelano.

O esforço russo, no entanto, carrega riscos. A Rússia pode perder dinheiro com Venezuela, principalmente se Maduro cair. Mas, por enquanto, Moscou acredita que vale o esforço. “Ninguém quer ser amigo da Rússia e é por isso que Putin busca países e regimes que ainda concordam em cooperar”, disse Mikhail Krutikhin, analista de petróleo da consultoria independente RusEnergy.

A relação entre Rússia e Venezuela cresce desde os tempos de Hugo Chávez. O que começou como uma transação comercial tornou-se uma questão estratégica para Putin, que busca uma posição mais forte no setor global de energia, mesmo que isso represente uma participação política na América Latina.

Hoje, a Rússia já controla 13% do setor de energia na Venezuela. Igor Sechin, um dos conselheiros mais conservadores de Putin, visita o país com frequência, cada vez mais como patrão em vez de parceiro. “Nunca sairemos e ninguém poderá nos expulsar”, disse Sechin, no ano passado. “Continuaremos expandindo nossa cooperação.”

Curiosamente, os americanos ainda são os maiores compradores do petróleo venezuelano e, por isso, os maiores financiadores de Maduro. Embora Trump tenha ameaçado adicionar o petróleo a sua lista de sanções, a ação fecharia as refinarias da Citgo e afetaria o fornecimento aos postos de gasolina dos EUA.

“Acho que Putin e Sechin são orientados globalmente. Eles sabem que o petróleo é uma arma e uma ferramenta”, disse Russ Dallen, gerente da corretora Caracas Capital Markets, com sede na Flórida. “Eles querem garantir seu investimento na Venezuela. E a melhor maneira de fazer isso é manter um ativo forte lastreado nos EUA.” 

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