Deslocados por conflito entre xiitas e sunitas no Iraque passam de 3 milhões

A saída das tropas americanas do Iraque, em dezembro, não fechou as feridas de nove anos de ocupação que se seguiram à deposição de Saddam Hussein. A herança da intervenção foi a escalada de um conflito sectário que parece longe de cessar e se arrasta dos bairros das principais cidades iraquianas ao centro de poder em Bagdá - onde xiitas, sunitas e curdos se digladiam.

GUILHERME RUSSO , ENVIADO ESPECIAL / BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h05

É difícil encontrar entre a população quem não tenha relatos de parentes ou amigos vítimas dessa tensão sectária, represada havia décadas pela mão de ferro de Saddam.

Além das mortes relacionadas à ação de milícias sunitas e xiitas em quase todo o país, os casos de deslocamento forçado, dentro e fora do território iraquiano, foram e continuam comuns - uma vez que a grande maioria desse tipo de ocorrência ainda não se resolveu. Os registros mais recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) comprovam que, até o ano passado, mais de 3 milhões de iraquianos estavam fora de suas casas: 1.683.579 no exterior e outros 1.343.568 no próprio país. Em Bagdá e outras cidades divididas entre sunitas e xiitas, os deslocamentos forçados ocorreram de bairro para bairro, entre distritos ou entre diferentes regiões da mesma vizinhança.

O drama da xiita Surian Humadi, de 37 anos, que já se mudou com a família quatro vezes desde que foi forçada, em 2005, a deixar o bairro onde sempre viveu, ilustra a questão. Além de ter sido obrigada a se deslocar internamente duas vezes, dentro de Bagdá, após ter três parentes assassinados por milicianos sunitas, ela resolveu deixar o Iraque em direção à Síria. Mas, mesmo depois de voltar ao território iraquiano, ainda não conseguiu retornar ao local onde ela e seus parentes viviam.

Surian diz que, apesar de ser xiita, nunca havia enfrentado segregação ou ameaças no bairro sunita de Al-Amriyah, onde morava. No início de 2005, porém, pouco após a tomada de Faluja - cidade que foi reduto da Al-Qaeda, dominada pelo Exército dos EUA em novembro de 2004 -, os radicais que fugiram dos americanos buscaram abrigo em seu distrito, o ponto de Bagdá mais próximo da região vizinha.

De acordo com Surian, os milicianos da Al-Qaeda assumiram o controle da mesquita do bairro e emitiram uma fatwa (ordem determinada por lideranças religiosas muçulmanas) que mandava os moradores não sunitas deixarem imediatamente o local. Surian afirmou que, pouco após a determinação geral, os sunitas começaram a ameaçar os xiitas que viviam na região com fatwas específicas para cada família que queriam expulsar do bairro. "Recebemos a ordem para deixar nossa casa em janeiro de 2005, pelo meu cunhado, mas não acreditamos. Demos risada dele, fizemos graça. Nós vivíamos em harmonia", disse Surian.

Ataque. "Em uma manhã de fevereiro, ouvimos disparos. Um amigo do meu cunhado tinha vindo para acompanhá-lo até o trabalho. Nesse momento, um carro bloqueou a rua, homens armados desceram do veículo e os mataram, bem na frente do portão de nossa casa. Ficamos impressionados", disse ela, contando que uma de suas filhas, Zahra, então com 5 anos, testemunhou toda a ação.

O cunhado morto - o mesmo que havia levado à família o recado para que todos deixassem o bairro - era um policial de alta patente, responsável por investigar homicídios e sequestros. Por esse motivo, seus parentes acreditaram que o assassinato não tinha relação com a ordem dos radicais, mas com uma possível vingança de algum criminoso. Assim, a família de Surian continuou no mesmo bairro.

A dona de casa contou que, em dezembro, um outro cunhado, também xiita, foi morto em condições parecidas em uma das lojas que possuía, na frente da residência da família de Surian. Novamente, a pequena Zahra testemunhou o crime. "Isso foi uma mensagem, por não termos feito nada após o primeiro ataque. Obrigaram a gente sair no mesmo dia. Não pudemos nem organizar o funeral."

Fuga. Surian afirmou que, assustada, deixou tudo para trás e foi com a família para a casa dos pais, na parte xiita de Al-Saidiyah, uma localidade até hoje dividida entre as duas correntes muçulmanas, também na capital iraquiana.

Três meses depois, em março de 2006, seu irmão foi morto em um bloqueio organizado pela milícia sunita que atuava no bairro. Ao mesmo tempo, sua mãe começou a ser hostilizada pelos próprios vizinhos, pois, apesar de casada com um xiita, é sunita. "O filho dela havia sido morto por causa dos sunitas, mas, mesmo assim, os xiitas passaram a não aceitá-la mais."

Após a intervenção de um clérigo xiita amigo da família, os pais de Surian conseguiram se mudar para a parte sunita de Al-Saidiyah. Apavorada com a morte do irmão, ela se mudou com a família para o distrito xiita de Al-Huryia. "Mas aquele bairro era muito tradicionalista. Faziam minhas meninas usarem o véu na escola."

Sem se adaptar ao novo local, Surian, o marido e as duas filhas foram para Damasco, na Síria, onde passaram dois anos, enfrentando dificuldades financeiras e de adaptação social.

Em 2009, a família voltou a Bagdá, mas não para a própria residência. "O lugar está em ruínas. Roubaram todos os nossos móveis", disse ela, que atualmente vive em Al-Mansur, um distrito compartilhado entre xiitas e sunitas.

O que Surian mais lamenta, porém, além de não conseguir vender sua casa na capital, é o fato de sua filha Zahra, hoje com 12 anos, "estar sempre deprimida". "Depois de testemunhar tanta violência, ela tem medo de que o pai seja assassinado. Insiste para sempre sairmos de casa juntos, para todos os lugares, para que, se algo acontecer, todos nós sejamos mortos e ela não tenha que chorar a morte de mais ninguém."

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