EFE/Miguel Gutiérrez
EFE/Miguel Gutiérrez

Desmobilizados, opositores priorizam vitória em Estado símbolo do chavismo

Na primeira eleição para governador desde 2012, oposição enfrenta desânimo após fracasso de protestos que pretendiam derrubar Maduro, bem como a máquina estatal que dá comida em comícios em meio a aumento da fome e da escassez

Juan Francisco Alonso, especial para O Estado / Maracay, Venezuela, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 06h00

MARACAY, VENEZUELA - Aragua. Quem procurar esse Estado venezuelano no mapa vai achar que ele não tem muita importância, pois não chega a 7 mil quilômetros quadrados. Se procurar informação nos livros, ficará com a mesma impressão, porque não há petróleo, nem ferro, nem ouro, nem qualquer outro desses minerais que abundam no subsolo de outras regiões do país caribenho.

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A importância de Aragua está em sua população (com 1,8 milhão de habitantes, é o quinto mais populoso), em seu aparelho agroindustrial, nas Forças Armadas (aqui se encontram duas das bases aéreas mais importantes do país e uma grande unidade de tanques) e, sobretudo, no simbolismo. 

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Neste Estado, localizado a menos de 150 quilômetros a leste de Caracas, Hugo Chávez passou boa parte de sua carreira militar. Aqui ocorreram as tentativas de golpe fracassadas que ele liderou em 1992. Chávez era então comandante de um dos batalhões de paraquedistas da região. Por isso, para o oficialismo venezuelano Aragua é “o berço da revolução”.

Isso explica a ânsia do chavismo em manter o controle sobre o Estado nas eleições regionais, agendadas para hoje, para as quais quase 18 milhões de venezuelanos foram convocados a escolher 23 governadores. O Estado visitou Maracay, a capital, na quarta-feira 11, quando, sob sol abrasador, o candidato do governo e ex-ministro da Alimentação, general Rodolfo Marco Torres, e seu adversário, o deputado Ismael García, encerraram as campanhas.

As pesquisas não preveem um bom resultado para o chavismo neste e na maioria dos outros Estados. Segundo o instituto Venebarómetro, 90% dos venezuelanos consideram a situação do país negativa e 70% culpam o presidente Nicolás Maduro. Mais do que isso, 55% dizem que votarão em candidatos da Mesa da Unidade Democrática (MUD), que aglutina partidos de oposição. 

Apesar desse cenário animador, os antichavistas não podem cantar vitória antecipada, especialmente em Aragua. Há desmotivação nas fileiras da oposição com o resultado pífio da onda de protestos no país entre abril e julho, em uma crise que deixou 125 mortos. 

As primárias de 10 de setembro provocaram divisão entre os antichavistas. Em Aragua, por exemplo, García foi escolhido candidato único sob acusações de fraude e sem o aval do partido Primeiro Justiça, do ex-candidato presidencial Henrique Capriles. Derrotado por Maduro na presidencial de 2013, Capriles perdeu na Justiça o direito a tentar a reeleição ao governo de Miranda. Ele está proibido de disputar cargos públicos por 15 anos.

A líder da oposição de Aragua, Rosalinda Gonzalez, foi expulsa do Primeiro Justiça por apoiar García. “O partido está dividido e alguns dirigentes andam até incentivando a abstenção. O chavismo terá um candidato ruim, mas tem dinheiro para mobilizar os eleitores”, alerta ela.

A deputada opositora Melva Paredes reconhece que a abstenção é um grande inimigo. “Os jovens que lutaram no asfalto e hoje se sentem frustrados ao ver que Maduro continua aí, mesmo depois de tanto sacrifício e dor, têm de participar para honrar aqueles que caíram pela democracia”, defende.

Esta mensagem, entretanto, não tem plena aceitação. “Não vou votar porque essas eleições não servirão para nada. Tudo seguirá igual, ganhe quem ganhar”, disse Carlos Sánchez, que trabalha em uma agência de viagens em Maracay. Esta desmobilização é compartilhada por conhecidos opositores, como Blanca Rosa Mármol, juíza do Tribunal Supremo. “Conseguimos que boa parte do mundo considere o regime de Maduro uma ditadura e agora vamos votar em eleições organizadas por ele?”, questiona a magistrada. 

QG chavista

Na sede do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), a poucas quadras da concentração governista de Aragua, respirava-se segurança. “Vamos ganhar porque nosso companheiro Marco Torres tem o apoio de toda a revolução e é um filho de Chávez”, disse Rebeca Goyo, funcionária da Secretaria da Educação do Estado. Ela não acredita que os eleitores culpem o chavismo pela escassez e a inflação, como nas eleições parlamentares de 2015, que deram o domínio do Congresso à oposição. “As pessoas estão conscientes de que a guerra econômica é um problema induzido e agentes econômicos internos e externos estão pressionando a república”, argumenta.

Como já é tradição, os recursos públicos ficaram à disposição dos candidatos chavistas. Veículos da TransAragua, empresa de transporte regional, levaram os governistas para o comício de encerramento da campanha de graça. Na concentração, houve distribuição de alimentos – o que não é pouco em um país onde 60% da população admite que deixou de fazer uma das três refeições diárias em razão da escassez e da inflação. A presença de funcionários públicos era considerável, e também a de adolescentes e crianças, levadas pelos adultos. 

“A oposição tem a oportunidade de ganhar na maioria dos Estados, mas, se vencer em Aragua, será um golpe para o chavismo, pelo que o Estado significa para a iconografia de Chávez”, diz o cientista político Luis Salamanca. “Isso lhe daria força para enfrentar uma possível eleição presidencial. Já um triunfo chavista ou mesmo uma vitória tímida da oposição serviriam para o governo de Maduro recuperar parte da legitimidade internacional e baixar a pressão interna, desde que aceite os resultados”, pondera Salamanca. 

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