REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Desnutrida e faminta, venezuelana perde 30% de seu peso em três anos

Fotógrafo da agência 'Reuters' revisita moradora da maior favela de Caracas retratada por ele em abril de 2016, antes de a economia entrar em colapso e de a inflação disparar; analistas dizem que disputa por envio de ajuda medirá apoio das Forças Armadas a Maduro

Carlos Garcia Rawlins e Shaylim Valderrama, Reuters

22 de fevereiro de 2019 | 12h14

CARACAS - Yaneidi Guzmán perdeu um terço do seu peso de 2016 a 2019 em razão do colapso econômico da Venezuela que elevou o preço dos itens básicos no país a tal ponto que ela não consegue mais comprar alimentos ou vitaminas. Por esse motivo, ela espera que a ajuda humanitária prometida pelo opositor Juan Guaidó chegue o quanto antes ao país. 

Essa mulher de 38 anos, cujas roupas ficaram muito grandes para seu corpo esquelético, é um dos muitos venezuelanos que sofrem de desnutrição, já que a outrora rica nação produtora de petróleo viu sua economia encolher 50% nos últimos cinco anos sob o comando do presidente Nicolás Maduro.

Nesse período, a dieta dos venezuelanos se tornou cada vez mais deficiente em vitaminas e proteínas já que o controle cambial imposto no país de 2003 a 2018 - e afrouxado parcialmente pela Assembleia Nacional Constituinte - restringe a importação de alimentos e os salários não conseguem acompanhar o ritmo da hiperinflação que passa de 2 milhões por cento ao ano - e que, segundo o FMI, pode chegar a 10 milhões por centro em 2019.

O crescimento da desnutrição é justamente uma das razões alegadas por Guaidó para seguir em frente com seu plano de levar ajuda humanitária, incluindo comida e remédios, para a Venezuela por terra e mar neste sábado, 23, apesar da resistência de Maduro.

O líder chavista nega que haja uma crise humanitária no país e acusa o opositor de promover um show midiático para tirá-lo do poder. Em discurso na TV estatal, Maduro anunciou na quinta-feira o fechamento da fronteira com o Brasil e disse que consideraria fazer o mesmo na passagem para a Colômbia.

Isso fez com que a milhares de toneladas de ajuda se transformasse em uma guerra por procuração sobre que, de fato, controla a Venezuela: o chavista, que em janeiro assumiu um contestado segundo mandato ou o líder opositor, que autodeclarou-se presidente em janeiro.

"Espero que eles (o chavismo) deixam a ajuda entrar no país", afirmou Yaneidi que, apesar de ter dois empregos, não ganha dinheiro suficiente para os exames, suplementos ou dietas ricas em proteínas que os médicos prescreveram. Ela e o marido ganham menos de US$ 30 (cerca de R$ 112) por mês e priorizam a alimentação de seus três filhos pequenos.

Apesar de o governo venezuelano não divulgar informações oficiais há anos, quase dois terços dos venezuelanos entrevistados em um estudo universitário chamado "Pesquisa sobre as condições de vida" e publicado no ano passado disseram que perderam em média 11 kg em 2017.

Em uma parede da casa de Yaneidi no Petare, maior favela de Caracas, há uma placa de madeira com o salmo bíblico "O Senhor é meu pastor, nada me falta". Apesar de não perder a fé, sua geladeira, no entanto, está praticamente vazia, exceto por alguns sacos de feijão.

Às vezes ela acorda sem saber o que vai dar para sua família comer naquele dia. Atualmente, suas refeições são compostas principalmente por arroz, lentilha e mandioca.

Apesar da venezuelana dizer que gostaria de receber a ajuda, ela está preocupada com o fato de que a ajuda humanitária possa ser como uma "gota no oceano", dadas as necessidades dos venezuelanos. "Você não come apenas uma vez", disse Yaneidi.

Alguns analistas políticos dizem que a disputa no sábado entre governo e oposição sobre a entrada da ajuda será menos sobre como resolver as necessidades da Venezuela e mais sobre testar a lealdade das forças armadas em relação a Maduro.

Lentilhas e bananas

Algumas agências de ajuda, como a agência católica de ajuda humanitária Caritas, já fornecem toda a ajuda que podem.

Em San Francisco de Yare, uma cidade 70 km ao sul de Caracas, a barriga do bebê de um ano de idade de María Guitia está distendida e seus braços magros. Os dois vivem com os cinco irmãos e os pais de María em um galpão de um só cômodo com chão de terra e sem água corrente.

O trabalho é escasso e eles vivem de pagamentos de trabalhos informais e de uma entrega mensal feita pelo governo de suprimentos básicos subsidiados. Eles começaram a improvisar refeições com o pouco que têm no quintal, como lentilhas e banana .

Relembre as imagens feitas pelo fotógrafo da 'Reuters' em 2016

María, de 21 anos, disse que seu filho só recuperou um pouco do peso perdido nos últimos cinco meses depois que a Caritas lhe deu alguns suplementos nutricionais.

As Nações Unidas e a Cruz Vermelha alertaram contra a politização da entrega de ajuda humanitária. A ONU, que pressiona Maduro a deixar o cargo, enviou ajuda para um centro de distribuição na vizinha Colômbia.

Yaneidi diz que sonha apenas do próprio trabalho, sem ajuda externa ou doações do governo.

"Não é que eu queira ser rica ou milionária", disse ela. "Mas eu quero dar às crianças um bom futuro, ter certeza de que posso levá-las aos médicos quando ficarem doentes... E que eles comam bem."

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