Desolados, moradores começam a ir embora

População deixa tudo para trás temendo novos desmoronamentos

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

07 de abril de 2009 | 00h00

O cair da noite amplificou ainda mais o drama que parte dos habitantes de Abruzzo, uma região de 1,3 milhão de habitantes do centro da Itália, vem sofrendo desde a madrugada de segunda-feira, após o terremoto. Uma chuva intensa desabou sobre as cidades mais atingidas pela tragédia, atrapalhando o trabalho de buscas e aumentando o frio e a sensação de desamparo das vítimas.Horas antes do maior terremoto, os moradores da região sentiram dois abalos leves, um às 22h30, outro às 1h20. O tremor devastador, às 3h30, durou 20 segundos. A cidade de Áquila foi ao chão, cobrindo-se de poeira e fumaça. A população saiu às ruas aos prantos, muitos de pijama, camiseta e descalços, apesar do frio. Os prédios que resistiram ao abalo e terrenos abertos foram usados como hospitais e acampamentos para os desabrigados. O governo italiano distribuiu nas cidades e vilarejos atingidos barracas azuis, cada uma com capacidade para 10 pessoas, mas em número insuficiente para todos - entre 50 mil e 70 mil desabrigados, segundo estimativas. Entre os dramas está o de Annalisa Angelini, 28 anos, que havia acabado de fazer uma cesariana no hospital de Áquila. Ela conseguiu escapar dos escombros descalça, com os pontos, segurando o soro. Ao lado dela, a mãe e a filha recém-nascida.Bernardino Persichetti, médico do mesmo hospital, estava abalado por não ter conseguido salvar quatro garotos, entre 4 e 12 anos, que morreram sufocados com a poeira. Em San Gregorio, uma menina de 2 anos foi retirada com vida dos escombros. Ela só conseguiu sobreviver porque sua mãe morreu ao protegê-la com o próprio corpo. Em Fossa, entre os mortos estava uma criança de 3 anos, que havia chegado para morar com a família havia um mês. Sua mãe ficou ferida, mas a irmã gêmea se salvou.Em Palena, o desespero salvou a vida de um alpinista de 49 anos. Assim que começou o terremoto, ele se jogou do terceiro andar de seu prédio. Ficou ferido gravemente, mas sobreviveu. Entre os desaparecidos está Lorenzo Sebastiani, de 20 anos, uma das maiores revelações do rúgbi italiano, que jogava na seleção da Itália e na equipe local de Áquila.Ao longo do dia, cerca de 60 pessoas foram retiradas com vida dos escombros. Mas a cada hora que passa a esperança de encontrar sobreviventes diminui. "Acho que jamais poderei descrever o que vivi", disse ao Estado, encerrando a conversa, uma senhora sentada no meio-fio de uma calçada."Foram momentos de pânico. Salvei-me com minha mãe, minha mulher e minha filha", contou Michela Dell?Amico, cuja casa ficava a 3 quilômetros do centro de Áquila. Outra sobrevivente, Paula Cencini, explicou como agiu em meio ao horror que atravessava: "Estava dormindo em casa quando sentimos o tremor. O guarda-roupas abriu e caiu sobre minha irmã, mas ela está bem."Nas cidades mais atingidas há carros soterrados, ruas encobertas pelos escombros, pontes condenadas e prédios destruídos. A comunicação é difícil. Há rodovias bloqueadas, falta energia, água, aquecimento. Até o sentimento da falta de objetos prosaicos, como um guarda-chuva, torna o cenário ainda mais devastador.

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