Desprezo por opinião mundial é incoerente

Israel precisa de ajuda estrangeira

Simon Tisdall*, O Estadao de S.Paulo

10 de janeiro de 2009 | 00h00

O menosprezo israelense pela opinião internacional, com sua recusa a aceitar um cessar-fogo em Gaza, contrapõe-se à sua crescente necessidade da assistência internacional para sair desta situação. Mesmo que as forças israelenses quebrem a capacidade do Hamas de manter-se no poder, as autoridades admitem que esta "vitória" seria temporária. Por trás das bombas e bravata, mesmo que com gosto amargo, a mensagem de Israel é: precisamos de ajuda. Governos israelenses anteriores resistiram à "internacionalização" das disputas do país, mas essa posição está mudando. O atual primeiro-ministro, Ehud Olmert, ficou feliz com a força de paz da ONU mais consistente no sul do Líbano, depois que sua expedição contra o Hezbollah em 2006 fracassou. Agora, as autoridades israelenses pressionam para a instalação de uma "presença internacional" ao longo da fronteira egípcia com Gaza para garantir que os túneis usados pelo Hamas para se abastecerem não sejam reabertos. Em suma, exigem ajuda estrangeira para reduzir as chances de os islâmicos se rearmarem, porque não podem fazer isto sozinhos. "Israel está num beco sem saída", disse Aluf Benn, colunista do jornal Haaretz. Ele não pode deixar Gaza sem antes derrotar definitivamente o Hamas; por outro lado, "se decidir optar por uma ocupação total da Faixa, poderá ter de pagar um enorme preço econômico e político sem conseguir atingir seus objetivos políticos". Como um banco em grave dificuldade econômica, Israel espera que a comunidade internacional lhe ofereça o equivalente diplomático de uma ajuda financeira. "Israel tenta montar uma complexa manobra baseada em um mecanismo internacional que impedirá o contrabando de armas para Gaza", afirma Benn. "O Egito deve apoiar a iniciativa, mas a tarefa concreta será confiada aos EUA e outras forças estrangeiras."O porta-voz de Olmert ressaltou a importância dos acordos sobre as fronteiras para se chegar um cessar-fogo. "Impedir que o Hamas receba armas é a premissa necessária de um novo acordo, a questão sine qua non", afirmou na quinta-feira. O acontecimento crucial é que estão sendo elaboradas medidas para criação de uma força de monitoramento internacional de todas as fronteiras de Gaza, não apenas das fronteiras terrestres com o Egito. Se o plano se concretizar, Gaza poderá transformar-se de fato em um protetorado internacional. Israel estaria protegido contra o Hamas, e os palestinos de Gaza protegidos contra Israel. Um relatório do Grupo de Crises Internacionais (ICG na sigla em inglês) afirma que está na hora de "a comunidade internacional entrar em cena de modo decisivo". Quando os combates cessarem, os esforços liderados pelo Egito com a colaboração de outros países da região deverão visar o fim do contrabando de armas, disse o texto. Todos os postos de controle na fronteira de Gaza com o Egito e Israel devem ser abertos e colocados sob a supervisão direta da União Europeia e dos palestinos. Mas o ICG também apoia "o envio de uma força de monitoramento internacional para verificar o cumprimento do cessar-fogo e servir de ligação entre os dois lados para esvaziar possíveis crises". O relatório sugere que países como França, Turquia e Catar poderiam exercer uma função importante. Depois de baterem ruidosamente no peito na questão de Gaza, os países europeus e árabes agora têm a oportunidade de atuar eficientemente no local, de maneira prática, com uma perspectiva de longo prazo. Segundo o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, a comunidade internacional precisa se esforçar mais. O status de protetorado para Gaza talvez seja a melhor solução. * Simon Tisdall é colunista

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