Bryan Denton/The New York Times
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‘Desradicalização’ francesa

Aí está! Foi aberto, enfim, o primeiro “centro de desradicalização” de jihadistas, na região francesa de Orleans. Já era tempo. Os assassinos do Estado Islâmico mataram em um ano cerca de mil mulheres, crianças e homens, e até agora não havíamos começado a desradicalizá-los. O erro foi finalmente corrigido. A França vai desradicalizar com tudo.

Gilles Lapouge *, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2016 | 05h00

O surpreendente centro de desradicalização fica numa bela mansão cercada de campos verdes. Ele receberá 20 jovens, de ambos os sexos, que foram seduzidos pela aventura do Estado Islâmico. Trinta especialistas os acompanharão durante oito meses. Prudentemente, entre os desradicalizáveis não há elementos extremamente perigosos.

Os hóspedes do centro são voluntários, jovens que, embora prestes a mexer com bombas, não estavam totalmente entusiasmados ante a perspectiva e lançaram um apelo: “Me ajudem a não explodir ninguém, a não massacrar crianças, a não atirar a esmo na multidão...”

E como os especialistas vão trabalhar? Nem eles sabem direito. Estão pisando em terreno desconhecido, obscuro, completamente virgem. Não há precedentes. Suas declarações são de uma humildade comovente: “Vamos começar tateando. Não sabemos se vai funcionar. Não sabemos como derrotar o vírus jihadista”.

Além dos instrutores, a mansão, que ficará aberta, terá 18 câmeras de vigilãncia. Os jovens receberão cursos de história das religiões e de como funciona a conspiração. Também terão de cantar a Marselhesa uma vez por semana, o que é uma boa ideia. E toda manhã haverá a saudação à bandeira. Se depois disso eles insistirem em continuar no mau caminho...

Incerteza. Os jihadistas serão cuidadosamente avaliados. Sabemos que alguns são espertos, capazes de jurar que estão curados quando continuam doentes. O Estado Islâmico adota um procedimento terrível, a taquia, uma espécie de mentira do bem, pelo qual as pessoas aprendem técnicas de dissimulação. É um conceito islâmico que, em linhas gerais, autoriza a mentira quando houver risco de perseguição religiosa contra o fiel. 

Felizmente, um instrutor atento vale por dois e, constatando que a cura foi rápida demais, ou excessivamente espetacular, vai concluir que houve um violento caso de aplicação da taquia pelos desradicalizáveis.

Para algumas pessoas, a resposta da França aos atentados que a martirizaram é minúscula: 20 jovens sob controle, enquanto os radicais realmente perigosos se multiplicam. Há um ano, a polícia francesa contava 3.100 “radicalizados” no país. Hoje, são muitos mais. 

A eles, somam-se todos os jovens que se juntaram às fileiras do jihadistas na Síria ou no Iraque e hoje estão desmobilizados, pois o Estado Islâmico, atacado pelos americanos e russos, perde rapidamente território.

Mas a França não vai se contentar com apenas um centro de desradicalização. Ela pretende criar mais 13 em um ano. Portanto, em dois anos, se der certo, teremos perto de 260 jihadistas curados.

E não é tudo. Se o primeiro centro se limita a receber terroristas gentis, delicados, pacíficos e sensíveis, outros núcleos se dedicarão a jihadistas de verdade, essas crianças perdidas que, por desespero e abandono, por imbecilidade e com o incentivo de pregadores fanáticos, passaram de fato para o outro lado, o lado da morte, e dedicam ao Ocidente, à cristandade e à França um ódio absoluto.

A recuperação desses fanáticos curtidos será mais complicada. Será que vão continuar fazendo-os saudar a bandeira e cantar a Marselhesa uma vez por semana? Uma Marselhesa semanal será suficiente? Talvez fosse o caso de, para os mais fanáticos, dobrar para duas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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