'Desta vez, nenhum mediador tem relação forte com os dois lados'

Para especialista em política do Oriente Médio, única linguagem que Israel e Hamas falam é a da dominação

Entrevista com

Nathan Brown

Cláudia Trevisan, Correspondente/Washington

02 de agosto de 2014 | 14h39

A linguagem que rege as relações entre israelenses e palestinos não é a da diplomacia, mas a do confronto e um eventual cessar-fogo em Gaza vai apenas posicionar os dois lados para um novo embate futuro, que todos consideram inevitável, avalia Nathan Brown, professor da Universidade George Washington, que desde os anos 80 estuda movimentos políticos no Oriente Médio.

"O Hamas quer controlar a agenda, mostrar que é relevante, que suas táticas inflexíveis podem trazer mais ganhos para os palestinos do que negociações. E parece que isso é o que está ocorrendo, com a linguagem da resistência, da força, da não concessão", disse Brown ao Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a diferença entre o conflito atual e os anteriores?

A grande diferença é o contexto internacional. Não há nenhum ator que tenha forte interesse em interromper o combate e seja realmente capaz de atuar como mediador. Há atores que têm relações privilegiadas com um lado ou outro, mas ninguém tem relações fortes com os dois lados. Os vários mediadores têm agora mais suspeitas mútuas, o que faz a diplomacia quase impossível.

A influência dos EUA sobre Israel diminuiu?

Os americanos defendem um cessar-fogo de maneira pública e está claro que Israel não quer isso nos termos que eles estão defendendo. Se os americanos dizem "A" e os israelenses fazem "B" parece uma redução de influência. O notável nos conflitos anteriores foi a extensão pela qual os EUA atuaram como "advogados de Israel", para usar expressão de Aaron Miller (do Wilson Center). Não é que a influência americana seja menor, mas sim que os EUA estão definindo objetivos que são diferentes dos de Israel. 

Quais os objetivos de Israel?

A grande questão é se eles podem se restringir aos objetivos originais da guerra ou se vão expandi-los para o que realmente querem: alguma solução, de sua perspectiva, para o Hamas, o que pode envolver desarmar a organização. Mas essa não é a razão da guerra, que é a destruição dos túneis. São coisas diferentes. Ao mesmo tempo, eles falam cada vez mais em desarmar o Hamas e há forte pressão doméstica para uma campanha mais extensa. Até agora, os líderes de Israel não estenderam os objetivos da guerra, mas a ideia de algo mais abrangente contra o Hamas está no debate público. 

Quão forte é o Hamas?

Depende de como você mede força. Eles são bastante enraizados na sociedade palestina, especialmente em Gaza, que eles governam desde 2007. Eles também têm alguma presença e apoio popular na Cisjordânia. No âmbito militar, eles não representam uma ameaça convencional a Israel, mas demonstraram uma capacidade de organização impressionante para se adaptar, o que parece incomodar Israel. Os foguetes não ameaçam Israel, mas eles capturaram completamente a atenção do público israelense. Com eles, o Hamas faz com que sua presença seja percebida. Uma das grandes fragilidades do Hamas é a diplomacia. Para grande parte do mundo, eles são párias. Alguns de seus aliados, como Egito e Síria, os abandonaram. Os seus mais fortes aliados, Catar e Turquia, têm problemas diplomáticos em razão do apoio ao Hamas. 

Qual seria um resultado positivo do conflito para o Hamas?

Um que reduzisse as restrições sobre Gaza e tratasse o Hamas como um ator que não pode ser ignorado. Isso permitiria que eles retornassem ao público palestino e dissessem: "Conseguimos algo que ninguém conseguiu". Isso seria uma tremenda vitória política.

Qual a chance de isso ocorrer?

Os israelenses sabem que isso é o que o Hamas quer. Em parte, essa foi a razão da irritação de Israel com John Kerry (secretário de Estado dos EUA), porque acharam que ele estava atuando dentro dessa agenda. Não é impossível que eles consigam algo parecido, mas talvez no longo prazo. É possível que consigam algo para apresentar como vitória política, mas os israelenses têm se mostrado muito ansiosos em impedir isso.

O Hamas está vencendo a batalha pela opinião pública palestina?

O Hamas quer controlar a agenda, mostrar que é relevante, que suas táticas inflexíveis podem trazer mais ganhos para os palestinos do que negociações. Parece que isso é o que está ocorrendo, com a linguagem da resistência, da força, da não concessão. Isso é um ganho para o Hamas, que conseguiu se mostrar mais relevante do que o presidente Mahmoud Abbas, o Fatah ou a Autoridade Palestina na Cisjordânia.

Quais são as questões fundamentais na origem do conflito?

São duas identidades nacionais que não se aceitam e não têm confiança mútua. A busca por uma solução diplomática, na qual os dois movimentos se aceitem e dividam o território chegou ao fim. O processo de paz não está entregando paz e não é mais um processo. A única linguagem que existe é a da dominação e do conflito. 

Há como chegar a uma solução de longo prazo?

Há dois tipos de processos. Um seria a negociação de um cessar-fogo, que é possível em algum momento. Mas esse cessar-fogo não é parte de um processo de paz. Ele não atinge nada mais abrangente. Esse amplo esforço diplomático realmente chegou ao fim e ninguém tem boas ideias para reavivá-lo. Mesmo que haja um cessar-fogo, ele não será parte de uma tentativa mais ampla de resolver o conflito.

Significa que teremos um novo confronto em breve?

Sim, absolutamente. E isso está tornando o cessar-fogo mais difícil, porque cada um dos lados quer concluir o combate em termos que o posicione de maneira favorável para novos confrontos, que todo mundo acredita que virão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.