Dmitry Kostyukov/The New York Times
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Destinados às mesas mais finas, vinhos franceses viram álcool para as mãos na pandemia

Crise econômica provocada pelo coronavírus e o imposto de 25% decidido pelo governo Trump sobre os vinhos franceses na disputa comercial com a Europa provocaram um colapso do mercado vinícola, especialmente na Alsácia

Adam Nossiter / The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2020 | 04h30

HUNAWIHR, FRANÇA - O caminhão-tanque parou e chegou o momento. A decisão de enviar o vinho para destilaria foi tomada há algumas semanas, uma decisão sofrida. Logo o vinho seria transformado em álcool desinfetante para as mãos.

“Temos de carregar o caminhão agora”, disse Jérome Mader, vinicultor de 38 anos, falando para si mesmo. “Ok, não vou pensar mais nisso. Ponto final."

Cabeça baixa, ele arrastou as mangueiras e as fixou nas válvulas do caminhão com ajuda do motorista, foi até sua adega e ligou as bombas. O vinho, o bom vinho branco da Alsácia, correu através das mangueiras para o reservatório do caminhão.

Pela região vinícola na Alsácia, acarpetada de vinhas de um verde profundo, e também em outras vinhas da França, milhares de vinicultores, alguns famosos, outros desconhecidos, estão enfrentando momentos similares de angústia.

A crise econômica provocada pelo coronavírus e o imposto de 25% decidido pelo governo Trump sobre os vinhos franceses na disputa comercial com a Europa provocaram um colapso do mercado vinícola.

Mader, cujos vinhos Riesling e seus Gewurtzraminers brancos de alta qualidade são enviados para restaurantes de luxo e lojas especializadas dos dois lados do Atlântico, perdeu metade das suas vendas desde dezembro. “A covid é uma catástrofe para nós”, afirmou.

E assim, parte desse vinho branco sutil e suculento dessas vinhas nas colinas banhadas pelo sol da Alsácia, pelo qual a região é famosa, acabará se transformando em desinfetante de mão. Como outros produtores, Mader não tem espaço na sua adega para armazenar a produção não vendida.

A safra de 2020, abençoada pela luz do sol abundante, quase não foi vendida. E os tonéis precisam ser esvaziados para a nova produção. A destilaria, por uma modesta compensação, é a única saída. O caminhão parou em várias vinhas durante toda a manhã.

“Alguns estão reagindo muito mal a isto, porque esse vinho tem valor comercial”, disse o motorista Lucas Neret. “Estamos produzindo mais do que conseguimos vender”, afirmou Thibaut Specht, vinicultor de Mittelvihr. “Não temos escolha.

A empresa da família de Marion Morès, o Domaine Borès, em Reichsfeld, enviou 30% da sua produção, 19 mil litros. “É como dizer adeus a alguém muito querido a você’, disse ela. “Não é exatamente o destino que tínhamos em mente quando produzimos este vinho”, acrescentou.

O vinho acabará nos silos de aço da destilaria Romann, vizinha, onde será transformado em álcool.

Somente na Alsácia, mais de seis milhões de litros de vinho, ou 1,5 milhão de galões acabarão se transformando em álcool. Mader estava enviando 15% da sua produção do vinho que ele chama de Edelzwicker, ou “uma mistura de castas nobre” no dialeto alsaciano. Normalmente é vendido no atacado. “É um vinho muito bom!, disse ele.

Na destilaria, o odor do vinho sendo fervido para ser transformado em álcool, como a essência de um rico molho Borgonha de carne, se espalha pelo estabelecimento.

“Estamos destilando continuamente”, disse Erwin Brouard, diretor da empresa. “É muito triste para os vinicultores. Seus estoques são enormes, e eles precisam abrir espaço. A colheita é no início do ano."

O governo francês, ansioso para proteger seu precioso patrimônio vinícola, está subsidiando a operação, compensando os cerca de 5 mil vinicultores que receberam até agora uma fração do valor do vinho, menos de um dólar por litro, no âmbito de um programa que o governo chama de Crisis Distillation.

“Minha adega está explodindo”, disse Guillaume Klaus, que tem uma vinha próxima. “Se não vendo, não como. Claramente isto está me dilacerando. São três anos de trabalho e nem somos pagos adequadamente."

É a primeira vez na sua história que a Alsácia enfrenta uma crise como esta, apesar de ela não ser desconhecida em outras regiões de vinho. A última crise ocorreu em 2009, após o colapso financeiro.

“Uma grande maioria vem sendo massacrada por esta crise”, disse Francis Backert, diretor da Associação de Vinicultores Independentes da Alsácia. “Essas pessoas estão realmente sendo duramente afetadas”.

“Todas as saídas estão fechadas. A exportação está bloqueada. Trump. Covid. Pouca coisa sai da França. O mercado americano está fechado”.

Os negociantes de vinhos no atacado registram prejuízos de 70% disse ele. Mas os prejuízos financeiros são um aspecto. Há também o abalo psicológico.

“Veja, essas pessoas são muito discretas e sentem vergonha. Elas não querem falar sobre isso. Claro que isto está partindo seu coração”.

Mader já conquistou prêmios e enfrentou um problema bem diverso do que o que depara hoje - não ter vinho suficiente para satisfazer a demanda.

“Pensar, há alguns anos, que um caminhão de uma destilaria chegaria aqui um dia - era algo inimaginável”, disse ele.“Eu hesitei. Achei que tudo ia passar. Esperei até o último dia para decidir, pensando que a situação melhoraria no dia seguinte."

Mas não foi possível adiar mais. O governo vinha pressionando e havia um prazo para ele se inscrever no programa de  subsídios. “Enquanto o vinho for bom sempre há esperança”, acrescentou.

As encomendas aumentaram mais recentemente. Além disso, “as uvas este ano estão magníficas”, disse ele”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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