Destino de arsenal químico do regime preocupa EUA

Análise: The Washington Post

REDIGIDA PELA EQUIPE DE OPINIÃO DO JORNAL, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2012 | 03h05

A explosão que matou membros da cúpula do regime sírio em Damasco na quarta-feira abalou a ditadura de Bashar Assad e pode levar o governo a perder o controle do território. Isso, por sua vez, poderia deixar vulneráveis suas armas químicas.

A Síria mantém um dos maiores estoques de armas químicas do Oriente Médio, composto por agentes vesicantes (que causam irritação extrema da pele) e nervosos, entre eles o gás sarin, fabricado em instalações sírias. Acredita-se que o país tenha buscado o mais mortífero gás nervoso já criado, o VX. Os agentes químicos foram transformados em armas sob a forma de bombas, ogivas de mísseis e munição de artilharia.

Os detalhes a respeito da localização desses estoques são pouco claros e há relatos de transferências recentes, mas acreditava-se que as armas estariam distribuídas em 45 locais espalhados pelo país. Agências de informações dizem que a Síria preparou armas químicas para serem usadas com seus mísseis Scud e SS-21.

Mesmo que Assad não esteja inclinado a usar armas químicas na guerra civil, existe o risco de elas se tornarem objeto de uma disputa conforme o poder do governo se esfacele. Uma gota de sarin pode matar um adulto.

Treze pessoas morreram e centenas ficaram feridas quando o gás nervoso foi liberado em vagões do metrô de Tóquio, em 1995, pela seita Aum Shinrikyo. Só podemos imaginar o terror e a incerteza que se seguiriam ao desaparecimento na Síria de ogivas ou munição contendo sarin.

A Síria nunca assinou a Convenção de Armas Químicas, de 1993, e temos de supor que os inspetores internacionais não seriam bem-vindos pelo governo Assad. No entanto, se o regime começar a ruir, a intervenção internacional pode ser exigida em caráter emergencial.

Riscos. Se for implementada enquanto ocorrem combates de rua, tal intervenção seria arriscada. O planejamento já deveria ter começado. Depois de apoiar Assad por tantos meses, a Rússia deve perceber que é do seu interesse manter tais armas sob controle, juntando-se ao planejamento.

A Organização para a Proibição das Armas Químicas (Opaq), localizada em Haia e encarregada de supervisionar o tratado e levar a cabo a destruição de armas químicas, não tem mandado legal para trabalhar na Síria, mas conta com uma valiosa experiência na inspeção e no monitoramento. A Opaq pode se envolver caso as Nações Unidas o solicitem.

No entanto, pode ser exigida também uma força armada para garantir a segurança dos agentes químicos e, para isso, será necessária uma coordenação cuidadosa com a oposição. Compreensivelmente, Israel enxerga as armas químicas e os mísseis na Síria como uma grave ameaça. Uma intervenção israelense, porém, poderia inflamar uma situação já em deterioração.

Um dos motivos pelos quais os EUA e outros países devem começar agora a planejar o destino das armas químicas da Síria é o de impedir Israel de agir unilateralmente. No entanto, o motivo principal é afastar um cenário de pesadelo: a possibilidade armas contendo sarin desaparecerem durante a guerra civil.

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