Destino de Assad divide potências em reunião sobre a Síria

Participação do atual líder em um hipotético governo de transição é ponto de discórdia entre Estados Unidos e Rússia

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE/GENEBRA , O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h03

Representantes das principais potências chegaram ontem a um acordo para tentar impor a formação de um governo de transição na Síria como forma de acabar com a violência. A reunião em Genebra, no entanto, evidenciou uma profunda divisão e a inflexibilidade da Rússia e China, fracassando em definir o que fazer com o presidente sírio, Bashar Assad. A Casa Branca insiste que o acordo indica que Assad estaria excluído de um novo governo. O Kremlin alega que nada disso consta do texto.

Ministros do Conselho de Segurança da ONU e da Liga Árabe pretendiam estabelecer um plano que pudesse evitar a eclosão do que muitos já temem ser uma guerra de proporções regionais. O texto final, porém, não passa de um acordo que diplomatas indicam ser impraticável. Não há um calendário para a transição.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, apoiava um plano elaborado originalmente pelo mediador Kofi Annan que, na prática, excluiria Assad de uma transição. Moscou e Pequim impediram que o projeto fosse adiante. A proposta aprovada se limita à formação de um governo de união com nomes escolhidos em consenso entre oposição e governo. O documento diz que "membros do atual governo" poderão fazer parte do novo regime.

Cada uma das potências saiu de Genebra com sua versão do que o texto queria dizer. Hillary insistia que o acordo deixa claro que "Assad precisa sair". "Seus dias estão contados. Não haverá um consenso em torno de seu nome", disse. Rebeldes já declararam ontem que não aceitarão fazer parte do governo de transição se Assad ou seus aliados estiverem representados.

Sergei Lavrov, chanceler russo, tinha outra versão. "Não há nada no texto dizendo que Assad sairá", afirmou. "Isso seria inconsistente com espírito da ONU", afirmou. O representante do Kremlin deixou claro que o veto ao texto original partiu dele.

Caberá ao já fragilizado Annan realizar consultas entre os grupos para um acordo. "Não será fácil", admitiu ao Estado. O negociador e ex-secretário-geral da ONU admite que o processo pode demorar até um ano.

Também não houve acordo sobre como aplicar o cessar-fogo, teoricamente válido desde abril. Europa e Estados Unidos queriam que o documento de ontem comprometesse países a aprovar no Conselho de Segurança uma resolução obrigando os sírios a aderir ao cessar-fogo, sob o risco de sanções e até uso da força. Sem o apoio de russos e chineses, Hillary indicou que a negociação de uma resolução ocorreria em Nova York nas próximas semanas. Lavrov, por sua vez, deixou claro que isso não ocorrerá.

Annan deu sinais de impaciência e acusou as potências de terem responsabilidade pelas mortes na Síria. "Ou vocês se unem ou fracassarão juntos", ameaçou os ministros. "A história julgará a todos nós de uma forma dura se não formos capazes de encontrar um caminho", alertou.

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