Fernando Vergara / AP
Fernando Vergara / AP

Destino final das armas das Farc preocupa os países vizinhos

Pela regra do acordo de paz, as armas devem ser depostas pelos combatentes em locais específicos, sob supervisão externa, ainda não definida

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2016 | 17h00

Os prováveis cinco mil ‘operadores’, das Farc, a tropa guerrilheira ainda mantida em campo na Colômbia pelo comando supremo dos insurgentes, podem ter em mãos até 7 mil fuzis e pistolas, milhares de granadas de mão, mais uma grande quantidade de munições. Tudo isso em bom estado, pronto para uso. Durante os 52 anos da guerra civil, o movimento rebelde desenvolveu técnicas e protocolos de procedimento para evitar a deterioração do equipamento de combate e preservar o poder de fogo. 

Não é só. O estoque contabiliza um número desconhecido de foguetes propelidos do tipo RPG, fornecidos pela China, e LAW, ingleses, comprados no mercado paralelo, com ogiva antiblindagem. O inventário inclui explosivos diversos, entre os quais o poderoso C-4H, uma versão de alta concentração e alta velocidade - 1,5 mais potente que o TNT, gerando uma onda de choque que se desloca a pouco menos de 30 mil km/hora. O destino desse arsenal preocupa o governo do presidente Juan Manuel Santos e de países vizinhos, o Brasil principalmente.

Pela regra do acordo de paz, as armas devem ser depostas pelos combatentes em locais específicos, sob supervisão externa, ainda não definida. O risco implícito é o de que haja um grande desvio do equipamento, ou a retenção pelas facções que não aprovam o cessar fogo e consideram a possibilidade de manter a luta. As Farc são, a rigor, uma espécie de federação de movimentos reunidos a partir de 1964 pelo fundador das Forças, Manuel Marulanda, o Tirofijo. Um modelo engenhoso e bem sucedido, formado por frentes alinhadas de acordo com cada uma das doutrinas da esquerda - dos moderados comunistas ortodoxos aos violentos maoístas radicais.

Em poucas semanas, haverá oferta de mão de obra combatente jovem, bem treinada, disciplinada e é bem possível, bem armada. Cartéis de drogas e facções do crime organizado das grandes cidades, além das gangues de contrabandistas das fronteiras do Brasil, Colômbia, Bolívia e Venezuela, farão gosto em recrutar os ‘soldados’ dispensados, pagando bem pelo conjunto de competências da mão de obra paramilitar.

Entre os ‘oficiais’ do contingente, há interesse particular pelos ‘professores’. Trata-se de um time de elite, quase todos oriundos da classe média burguesa, voluntários, com boa formação acadêmica e rara participação nas ações de enfrentamento. Sua missão era a de organizar a aplicação do dinheiro das Farc no mercado financeiro internacional e a de planejar as operações de expropriação - o nome político do assalto a banco e ao saque de empresas de transporte de valores.

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