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Destroços do 11/9 'me deixaram sem palavras', diz fotógrafo catalão

Único a fotografar objetos do WTC, Torres relata como conseguiu acesso ao hangar usado para guardá-los

Christina Stephano de Queiroz, especial para o estadão.com.br,

02 Setembro 2011 | 16h38

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

 

SÃO PAULO - Único fotógrafo a fazer um registro completo das imagens dos destroços do 11 de Setembro armazenados pelas autoridades de Nova York em um hangar, o catalão Francesc Torres inaugura exposições simultâneas em Londres, Nova York e Barcelona.

 

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Em entrevista exclusiva ao estadão.com.br, Torres explica que a principal dificuldade do projeto foi encontrar o tom adequado para realizar um trabalho que funcionasse visualmente e, ao mesmo tempo, não desrespeitasse o significado do material retratado.

 

As fotos de Francesc Torres, feitas com uma câmera panorâmica 6x12, já podem estão expostas em Londres. No dia 8 estarão em exposição também em Nova York e Barcelona. A mostra também acontecerá em outras cidades da Europa, entre elas Madri (a partir do dia 15).

 

estadão.com.br: Quais foram suas impressões ao entrar pela primeira vez no hangar?

Francesc Torres: Indescritíveis. Imagine um espaço quase do tamanho de um campo de futebol repleto de elementos arquitetônicos com 25 metros de largura, veículos, caminhões de bombeiros queimados, carros de polícia, vagões de metrô, ambulâncias carbonizadas, táxis amassados, objetos pessoais, roupas, conteúdo das lojas que estavam no subsolo e bilhetes de despedida. Foi algo que me deixou sem palavras, tanto pelo volume de coisas armazenadas, quanto pela singularidade do material. Cada objeto tinha proporções amplas e apresentava imagens potentes. Quando entrei pela primeira vez no hangar, percebi que contava com material extraordinário para trabalhar. Comecei, então, a criar um projeto que fizesse sentido para mim e para os organizadores do Museu Nacional do 11 de Setembro, que será oficialmente inaugurado em setembro de 2012. O Museu também vai integrar um memorial, que será aberto ao público no próximo dia 12.

 

estadão.com.br: Como encontrou o tom adequado para trabalhar com um material tão delicado?

Francesc Torres: Essa é uma reflexão que eu faço desde meu trabalho anterior, em que registrei a abertura de uma fossa comum. Ambos os projetos exigem atuar com sensibilidade especifica, já que não posso simplesmente pensar em fazer fotos artísticas, devido ao significado dos objetos. De outro lado, tampouco posso realizar imagens ruins, só para não ser acusado de ter sido levado por interesses estéticos. Foi difícil pensar em algo que funcionasse visualmente e não desrespeitasse o significado dos elementos fotografados. Outro aspecto perverso do projeto é que, há 150 anos, uma viga torcida era apenas uma viga torcida. Hoje, com o avanço da história visual e das artes plásticas, uma viga pode ser uma escultura, conforme o artista que a torceu e o local onde foi apresentada. Com isso, a diferença entre um objeto saído de um cataclisma e uma obra de arte pode ser muito sutil. Eu nunca vi tantas “obras de arte” como dentro do hangar. E, no entanto, o único que sobrou de uma verdadeira obra foram restos de uma escultura de Alexander Calder, artista norte-americano considerado inventor do móbile.

Outra preocupação foi registrar o hangar antes que ele desaparecesse, já que as peças foram distribuídas para museus dos EUA e instituições do exterior. E o tempo que eu levei para documentar e organizar o local coincidiu com o aniversário de 10 anos dos atentados. Meu registro fotográfico é o único feito com esse material.

 

estadão.com.br: Quais foram os impactos do 11 de Setembro nos Estados Unidos e do atentado em Madri em 2004?

Francesc Torres: São reflexos muito diferentes. Nos EUA, o 11 de Setembro realmente representa uma data marcada a fogo na memória emocional do país. As pessoas de Nova York se sentiram gravemente atacadas, já que muitas sabiam que estavam pagando por erros de George W. Bush, político que, de maneira geral, repudiam. Por outro lado, os norte-americanos possuem uma capacidade tremenda para reagir e assimilar os fatos e, por isso, se deram conta de que os restos recuperados do atentado faziam parte da história.

Já em Madri, parece que não aconteceu nada. As autoridades fizeram o típico: ergueram um monumento em homenagem às vítimas e não se falou mais nada. Que eu saiba, não se guardou quase nada do atentado em Atocha. A Espanha é um país que tem dificuldades sérias para lidar com a memória histórica.

 

estadão.com.br: Que outro trabalho seu pode ser comparado ao atual?

Francesc Torres: O imediatamente anterior, produzido em 2004 e que se chamava Oscura es la habitación donde dormimos (Escuro é o quarto onde dormimos) (assista um vídeo a respeito). O trabalho consistiu na documentação fotográfica de todo o processo de abertura de uma fossa comum da Guerra Civil Espanhola, feita em 1936 em Burgos, pouco tempo depois que o conflito começou. Enterradas estavam 46 pessoas, muitas delas homens jovens com relação de parentesco. Decidi que era importante documentar esse processo, pois era algo que ninguém tinha feito até então. Como eu disse antes, a manutenção da memória histórica na Espanha é um tema controverso.

 

estadão.com.br: Como você enxerga a questão do terrorismo?

Francesc Torres: O terrorismo é uma ameaça atual, porém tem sido usado para justificar mentiras. Com a desculpa da “guerra contra o terror”, se fizeram duas outras guerras: contra o Iraque e contra o Afeganistão. O terrorismo é um fenômeno político geralmente usado por grupos que não encontram outras formas para expressar seus problemas.  Eu não justifico a violência, mas é preciso ter em conta que sempre há problemas por trás dela. E os governos deveriam tentar solucionar as causas do terrorismo e não simplesmente matar seus atores.

 

estadão.com.br: Como conseguiu autorização para entrar no hangar e fazer as fotos? 

Francesc Torres: Foi um processo complicado. O chamado hangar 17, onde estavam guardados os resquícios do atentado, era fechado ao público e somente as pessoas envolvidas com o projeto o conheciam.  Foi utilizado, durante sete anos, como uma solução de emergência para armazenar os objetos encontrados pelas equipes que trabalharam no local dos atentados. As autoridades portuárias de Nova York e Nova Jersey eram as proprietárias das torres, por isso os objetos foram levados para o hangar.

Fiquei sabendo da sua existência por meio de uma amiga que trabalha com urbanismo para a prefeitura de Nova York. Na ocasião, em 2006, eu era chefe de um departamento na New York University e, devido à minha posição, entrei em contato com pessoas que resolveram me ajudar. As conexões me levaram até o Museu do Estado de Nova York em Albany e, desde lá, iniciei o processo para conseguir a autorização. Assim, já em 2006, consegui visitar o hangar, porém sem poder tirar fotos, algo que ocorreu nos anos posteriores.

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