Destrua antes de ler

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Como as agências de inteligência americanas estão se preparando para trabalhar na presidência de Trump

The Economist, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

Sabia-se que a reunião entre Donald Trump e os chefes da comunidade de inteligência dos EUA, no dia 6, não seria fácil. Trump passou meses tratando com desdém a conclusão a que chegaram as agências de inteligência americanas, segundo a qual a Rússia teria conduzido uma série ciberataques com a intenção de interferir na eleição de novembro. O presidente eleito se mostrou ainda mais indignado com a alegação de que os ciberataques buscavam garantir sua vitória. 

Ainda que em nenhum momento tenha sido dito que os esforços do Kremlin influenciaram no resultado da eleição, Trump achou que estava em curso uma trama para minar sua legitimidade. Para piorar, a inteligência resolveu colocar o presidente eleito a par de alegações não comprovadas de que a Rússia teria materiais comprometedores a seu respeito, assim como informações sobre contatos mantidos entre integrantes de sua equipe de campanha e agentes russos.

Não bastasse isso, o general Mike Flynn, que será o assessor de Segurança Nacional de Trump, foi demitido do comando da Agência de Inteligência de Defesa (DIA), do Pentágono, por uma das autoridades que participavam da reunião, o general James Clapper, diretor de inteligência nacional, além de ter sido derrotado numa disputa interna pelo diretor da CIA, John Brennan, também na reunião. Flynn era respeitado na comunidade de inteligência, tendo auxiliado as forças especiais americanas no Iraque e no Afeganistão. Mas, em 2012, ao ser encarregado por Clapper de reorganizar a DIA, um órgão com 16 mil funcionários, o general demonstrou pouca competência administrativa e entrou em conflito com outras agências de inteligência, que a seu ver subestimavam a ameaça do extremismo islamista. Nisso ele tinha certa razão, mas, depois de deixar a DIA, começou a assumir posições cada vez mais islamofóbicas. Tudo somado, Flynn não é a pessoa mais indicada para aplacar as desconfianças que seu chefe nutre sobre os serviços de inteligência americanos.

Relatório. Desde a época de John Kennedy, os presidentes dos EUA e assessores na área de defesa e política externa recebem um relatório diário de seis ou oito páginas. Segundo David Priess, que já foi do alto escalão da CIA, o relatório costuma conter informações importantes sobre o que pensam líderes estrangeiros, além de chamar a atenção do presidente para ameaças emergentes.

O único presidente que preferiu não receber o relatório foi Richard Nixon, que acreditava (sem ter provas) que a CIA havia sabotado sua candidatura em 1960, produzindo estimativas exageradas sobre a superioridade do estoque de mísseis da URSS em relação ao dos EUA – algo que foi explorado por Kennedy na campanha. Mas, ao contrário de Trump, após passar oito anos como vice de Dwight Eisenhower, Nixon se tornara um especialista em política externa. Além disso, como observa Priess, ele tinha em seu gabinete o formidável Henry Kissinger. Trump já deu a entender que não vai querer receber o relatório todos os dias.

O general Michael Hayden, ex-diretor da Agência de Segurança Nacional e último diretor da CIA no governo de George W. Bush, diz que, a cada novo presidente, os agentes encarregados de transmitir os relatórios de inteligência enfrentam o mesmo desafio: “Você tem o sujeito dos fatos (inteligência) e o sujeito da visão. Um é pessimista; o outro, otimista. O sujeito da inteligência tem de encontrar uma maneira de entrar na cabeça do presidente, mas sem esquecer das coisas que levaram esse último à Casa Branca”. Mas, no caso de Trump, Hayden concorda que o desafio será extraordinário.

Será que alguém que confia tanto em sua intuição e não se dedica muito à leitura vai assimilar as informações que lhe serão trazidas pelos agentes de inteligência? Para Hayden, o novo diretor da CIA, Mike Pompeo, não pode deixar que isso afete o trabalho de seus subordinados. Em sua opinião, o jeito será recorrer ao vice Mike Pence. O relatório também chegará às mãos dos generais Jim Mattis, no Pentágono, e John Kelly, no Departamento de Segurança Nacional, que sabem lidar com informações de inteligência. O mesmo vale, acredita Hayden, para o ex-CEO da Exxon Mobil, Rex Tillerson, que comandará o Departamento de Estado.

As agências de inteligência americanas farão de tudo para se adaptar ao estilo de Trump. Mas não serão auxiliadas nisso pela presença de Flynn, que vê a si mesmo como um “provocador”. Como diz uma pessoa que conhece Flynn e chegou a admirá-lo no passado: “Pelo bem do país, espero que ele não seja a pessoa que filtrará as informações de inteligência para o presidente.” 

/ TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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