Destruir grupo jihadista é uma missão impossível

ANÁLISE: Shane Harris / FOREIGN POLICY

O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2014 | 02h02

Em pronunciamento transmitido pela TV (programado para a noite de ontem), o presidente americano, Barack Obama, falou ao povo americano e estabeleceu o que a Casa Branca está apregoando como uma estratégia firme para "degradar e finalmente destruir" o Estado Islâmico (EI). Um problema: isto será literalmente impossível.

Os EUA passaram mais de uma década tentando eliminar a Al-Qaeda, mas apesar de dizimar o grupo, seu líder fugitivo, Ayman al-Zawahiri, continua vivo e as ramificações do grupo operam no Mali, Iêmen, Somália e em uma lista crescente de outros países. Israel passou décadas combatendo o Hezbollah e o Hamas, mas estes grupos continuam capazes de lançar operações de combate em larga escala, como a recente guerra em Gaza.

"Destruir uma organização significa erradicá-la para sempre, como as potências aliadas fizeram com o partido nazista na Alemanha durante a 2.ª Guerra", disse Christopher Harmer, ex-oficial da Marinha americana e analista do Institute for the Study of War. "Se você usa a palavra 'destruir', está falando de uma vitória política e militar abrangente", disse Harmer. "Se a missão é destruir (o EI), o que estamos fazendo agora é inteiramente inadequado."

Destruir o EI, por esta definição, exigiria erradicar ou neutralizar milhares de combatentes, expulsando-os dos territórios que o grupo controla no Iraque e privando-os de sua base de operações na Síria, para onde os consultores militares de Obama disseram que a luta deve se encaminhar. O fato de terem recrutado centenas de combatentes ocidentais, assim como consideráveis somas de dinheiro e acesso a receitas de petróleo, também o torna resistente.

A escolha de palavras do presidente é crucial porque moldará o futuro da intervenção militar americana no Iraque, que até agora conta mais de 150 ataques aéreos realizados em coordenação com forças terrestres iraquianas e curdas. No entanto, os EUA não informaram quantos combatentes radicais foram mortos e a campanha até agora parece não ter causado danos significativos na capacidade da organização de se movimentar no Iraque e na Síria ou de controlar grandes cidades em ambos os países.

Logo que é expulso de uma área, o EI aparece em outra, como fez recentemente em Haditha, onde aviões americanos haviam bombardeado seus militantes. Para destruir efetivamente o EI seria preciso um grande comprometimento de forças de combate terrestres, mas Obama já disse que elas não virão dos EUA. Com isso, qualquer estratégia com base na eliminação do grupo é tolhida pela falta de um ingrediente básico. Destruir o EI, porém, exigiria uma reconciliação política no Iraque para quebrar a aliança do grupo rebelde com baathistas e tribos sunitas e voltá-los contra o EI.

"Seria preciso uma verdadeira estratégia para enfrentar questões de governança em partes do mundo onde extremistas islâmicos prosperam, porque não se pode vencer alguma coisa com nada", disse Danielle Pletka, do American Enterprise Institute, "Pode-se matar uma porção de pessoas, mas se tudo que se deixar no lugar for o caos, elas voltarão."

Mesmo que uma campanha combinada, política e militar, fosse bem-sucedida contra o EI, a história mostra que destruir organizações fundamentalistas e redes terroristas é extremamente difícil. Apesar de Obama afirmar que os EUA "desmantelaram sistematicamente" a Al-Qaeda nas regiões tribais do Paquistão, especialistas em terrorismo debatem se isso é verdade, assinalando o fato de Zawahiri ainda estar vivo e treinando combatentes, além de formar novas filiais da Al-Qaeda, a maioria recentemente na Índia.

Quase 13 anos antes dos ataques de 11 de Setembro, uma campanha militar sustentada contra o Taleban, no Paquistão e no Afeganistão, não destruiu a organização. Israel, por sua vez, foi incapaz de destruir o Hamas e o Hezbollah, apesar da proximidade física do país com os grupos militantes e de sua capacidade de mobilizar uma das forças militares e de inteligência mais formidáveis do planeta.

A lição é clara: redes terroristas são persistentes e elas voltam a seus alvos favoritos várias vezes. Por exemplo, agentes de inteligência de alto escalão disseram que a filial da Al-Qaeda na Península Arábica representa uma ameaça séria e crescente ao território americano por sua experiência em fabricar bombas com explosivos não metálicos que as tornam mais fácil de contrabandear por aviões comerciais.

O grupo, a Al-Qaeda na Península Arábica, foi responsável por tentativas de explodir uma bomba num avião comercial sobre Detroit, em 2009, e o complô para ocultar explosivos em cartuchos de impressoras, no ano seguinte.

Se destruir o EI não está no programa, o que dizer de "derrotá-lo"? Trata-se de um objetivo mais limitado e potencialmente mais viável, mas ainda assim muito ambicioso e, provavelmente, impossível de se alcançar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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