Desvalorização cambial deve ser próxima medida

Analistas e observadores estrangeiros acreditam que Maduro afrouxará o câmbio, apesar do risco de agravar a inflação

Roberto Lameirinhas, enviado especial a Caracas,

09 de dezembro de 2013 | 23h13

CARACAS - Passada a eleição - o primeiro grande teste de popularidade para a presidência de Nicolás Maduro -, os venezuelanos tentam agora encontrar soluções para uma crise econômica que se avizinha e pode tomar proporções perigosas. Economistas, analistas e empresários apostam que o próximo passo do governo será uma maxidesvalorização do bolívar, a moeda venezuelana, para conter a fuga de divisas e a redução do nível das reservas internacionais.

O risco, afirmou ao Estado o economista Jorge Ortiz, é o de uma disparada da inflação, que já acumula 54% nos últimos 12 meses. "A Venezuela importa quase tudo o que consome e o preço desses produtos sofrerá um impacto importante no caso de uma desvalorização", explicou Ortiz. "Por outro lado, a atual situação cambial é insustentável." Pela cotação oficial, de câmbio fixo, US$ 1 vale 6,30 bolívares. No mercado negro, porém, o dólar é cotado em até 60 bolívares - quase dez vezes mais do que o valor estabelecido pelo governo.

Estudos de bancos estrangeiros estimam que o governo deve anunciar nos próximos dias um reajuste da cotação que pode chegar a até 17 bolívares. Uma fonte diplomática consultada pelo Estado em Caracas, porém, crê que a desvalorização deve ser menos profunda, para 10 a 11 bolívares por dólar.

"Uma medida dessas seria impensável antes da eleição de domingo, uma vez que o venezuelano tem a noção de que desvalorização monetária significa aumento de preços", disse o diplomata. "Agora, só haverá outra eleição em 2015. Poucas vezes nos últimos anos a Venezuela ficou um período tão grande sem votação. É esse o momento para o governo agir e, se necessário, adotar ações menos populares."

Com a diferença entre a cotação do dólar oficial e no mercado negro, as reservas internacionais do país petroleiro, que recebe em torno de US$ 1 bilhão a cada três dias, começaram a baixar sensivelmente. Eram de US$ 20,8 bilhões, no fim da semana passada, 30% menos do que era em janeiro.

Essas reservas são utilizadas para o pagamento de importações e de parcelas da dívida externa. Em razão da baixa, alguns pagamentos - incluindo para empresas brasileiras - sofreram atraso nos últimos meses.

A desvalorização ajudaria ainda a reduzir os gastos da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA), que financia a maior parte dos projetos sociais do país e acumulou uma dívida de US$ 9,1 bilhões de janeiro a junho deste ano. Há expectativa de que a PDVSA firme nos próximos dias um acordo com a espanhola Repsol, envolvendo investimentos de US$ 1,2 bilhão.

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