Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

Desvalorização do peso é esperada por turistas e taxistas

Macri promete encerrar o controle sobre o câmbio, que vigora desde 2011 e fez o peso se valorizar, afastando brasileiros

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2015 | 03h00

BUENOS AIRES - O fim do controle sobre o câmbio vigente na Argentina desde 2011, que o conservador Mauricio Macri promete concretizar no dia 10 de dezembro, data da posse, encheu de esperança taxistas e turistas brasileiros. A valorização do peso em relação ao real em cerca de 30% em um ano fez com que os passeios de turistas do Brasil por Buenos Aires ficassem mais raros.

O gaúcho Geison Palavro, de 25 anos, que visita o irmão da capital argentina, tomou uma decisão radical: só comerá carne em abundância quando voltar para casa. “Esperava gastar R$ 50 e gastei R$ 150 numa refeição. Me surpreendeu”, disse. Em sua primeira visita à Argentina, ele afirmou ainda que calçados encontrados por R$ 400 no Brasil custam R$ 700 em Buenos Aires. “Falei pra vendedora que estava muito caro e ela até ficou sem jeito”, acrescentou o dono de uma empresa de segurança em Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha. Ele estava acompanhado de Jaci Groseli, de 47 anos, cujo filho vive na capital argentina e reclama a cada telefonema da inflação – estimada em 14% pelo governo e 25% por consultorias especializadas. “É minha segunda vez e não vi diferença em relação a maio. Pelo contrário, então troquei o real por 3,60 pesos e agora a 3,90”, afirmou.

Groseli se referia ao valor do real no mercado paralelo, que acompanha as oscilações do dólar. Nos últimos meses, houve pressão de alta sobre a moeda americana no mercado negro, onde é vendida a 15,10 pesos – em março valia cerca de 12 pesos. No mercado oficial, o valor é de 9,60 pesos.

A regulação, chamada na Argentina de “cepo”, nome de uma tortura que imobiliza a vítima, está ligada ao baixo volume das reservas do país, de US$ 25,9 milhões. A restrição afetou importadores e exportadores, que viram limitado seu acesso à moeda americana para o pagamento de produtos e equipamentos, algo essencial para a exportação.

Neste fim de semana, o Banco Central recorreu a uma medida que permite usar dólares de outros bancos para continuar interferindo diretamente na cotação. Segundo especialistas, esta seria a última alternativa para manter a cotação do dólar oficial (e indiretamente, a do paralelos também) e evitar a desvalorização esperada não só por turistas.

O taxista Hector Javier Serrano, de 45 anos, trabalha no bairro da Boca. Ele afirma que os brasileiros desapareceram. “Se houver uma desvalorização, a tendência é que voltem. Para mim seria bom, ainda que eu ache ruim a vitória do Macri. Ele não pensa no povo mais pobre”, disse o morador de Lomas de Zamora, um dos municípios menos desenvolvidos da área metropolitana de Buenos Aires.

Enquanto o número de visitas à Argentina cai, o de argentinos sobe. Em setembro, 32% a mais deixaram o país para passear na comparação com o mesmo mês de 2014. “Estamos torcendo por Macri. Vamos para a festa”, disseram duas amigas brasileiras que visitavam o túmulo de Evita no cemitério da Recoleta ontem à tarde.

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