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Desvalorização do real pressiona o kirchnerismo

A desvalorização do real e a consequente perda de competitividade dos exportadores argentinos colocaram a cotação do peso no centro da campanha presidencial argentina, a 11 dias das primárias que medirão a força do governo e do bloco opositor. A Argentina escolhe o sucessor da presidente Cristina Kirchner em 25 de outubro.

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2015 | 02h03

Desde 2011, o governo mantém a moeda americana sob controle - enquanto no câmbio oficial está em 9,18 pesos, no paralelo fechou ontem em 15 pesos. A regulação limita o acesso de empresários às divisas, o que compromete as exportações e o pagamento das importações.

Ontem, as manchetes dos cadernos de economia dos principais jornais e canais de TV alertavam para o viés de baixa na moeda do principal parceiro comercial argentino e colocavam o governo, que está determinado a não mexer na política cambiária até a eleição, contra as cordas.

"Se o real chegar a R$ 3,50 ou R$ 3,60, Cristina terá de desvalorizar o peso antes de deixar o poder. Pode-se afirmar que se o real seguir essa tendência, os Kirchners podem ter problemas", disse ao Estado o economista Miguel Ángel Boggiano, que escreveu no jornal Perfil a coluna "O dólar e o real, a tormenta perfeita para os K".

Professor da Universidade San Andrés e consultor, Boggiano aponta pequenas variações diárias no câmbio oficial, de um ou dois centavos, um fenômeno semelhante ao que ocorreu antes de janeiro de 2014, quando o governo permitiu uma desvalorização brusca, que chegou a 25% em dois dias.

"A Argentina tem 21% das exportações para o Brasil e toda a indústria de automóveis depende da economia brasileira. As fábricas já deram folgas aos funcionários, com redução de salário", disse.

Boggiano acusa o governo de querer combater a inflação - 15% pelos números oficiais e de 25% segundo consultorias - usando o câmbio e emissão de moeda, em vez de baixar o gasto público.

Os principais candidatos opositores, Mauricio Macri e Sergio Massa, aproveitaram a instabilidade para exigir mudanças na condução da economia. O conservador Macri, prefeito de Buenos Aires, disse que eliminará o controle sobre o dólar em seu primeiro dia de governo.

Massa, um ex-kirchnerista que centra sua campanha no combate à criminalidade, apontou a redução de impostos como solução para recuperar a competitividade da indústria argentina.

Na avaliação do economista da União Industrial Argentina, Diego Coatz, uma desvalorização do peso no panorama atual, "com a alta inflação e baixas reservas", teria um resultado "desastroso".

"Podemos pedir que se equilibre a competitividade com a revisão de alguns impostos, mas uma desvalorização traria turbulência", afirma Coatz. Ele considera que primeiro a Argentina tem de unificar o câmbio e cumprir uma série de medidas que o governo de Cristina Kirchner não concretizou em oito anos.

Diante do cerco de políticos e economistas com diferentes soluções, o ministro da Economia, Axel Kicillof, denunciou uma tentativa de assustar os argentinos por parte de um "clube de desvalorizadores".

""Não falem de atraso cambial porque f... a população. Quando as pessoas se assustam, não investem. Se acham que vai ocorrer desvalorização do peso, que o dólar paralelo vai disparar, não investem", reclamou o ministro no canal A24.

A pressão é algo que não deve mudar o rumo do governo kirchnerista nos últimos meses do mandato da presidente Cristina, na opinião de Dante Sica, diretor da consultoria econômica Abeceb.

"O governo não vai mudar a estratégia. A pressão aumenta, mas ele tem capacidade para se manter e segurar até a eleição pelo menos", avalia Sica.

"A Argentina tem 21% das exportações para o Brasil e toda a indústria de automóveis depende da economia brasileira. As fábricas já deram folgas aos funcionários, com redução de salário"

Miguel Ángel Boggiano

CONSULTOR

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