Desvantagem do presidente é fato inédito na história

Se as projeções se confirmarem, Nicolas Sarkozy será o primeiro chefe de Estado em busca da reeleição a não vencer o primeiro turno desde o advento da 5.ª República, em 1958. O cientista político Madani Cheurfa, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), conversou com o Estado sobre as origens e as repercussões possíveis dessa eventual derrota de hoje.

Entrevista com

PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h04

Como o sr. vê o fato de as pesquisas indicarem a vitória da oposição no primeiro turno?

É a grande surpresa da eleição. Se as pesquisas se confirmarem, será a primeira vez em nove eleições presidenciais da história da França que o candidato à reeleição, no caso Sarkozy, não será o primeiro colocado no primeiro turno. Mas há outro elemento importante, que põe em dúvida esses prognósticos: a taxa de indecisão, que torna impreciso prever o comportamento do eleitorado.

Sarkozy afirma ter sido prejudicado pela igualdade no tempo de TV e de rádio entre todos os candidatos, uma imposição da lei eleitoral francesa. Qual a sua opinião?

Não temos dados científicos que nos permitam chegar a essa conclusão. Mas a impressão é a de que, quando Sarkozy perdeu espaço na mídia, ele passou a cair nas pesquisas. Repito: não temos como estabelecer uma relação de causa e efeito, mas a coincidência é perceptível.

A votação de hoje também tem um fator surpresa: a disputa acirrada pelo terceiro lugar entre as extremas direita e esquerda.

Sem dúvida. A diferença entre os dois primeiros candidatos em relação ao terceiro e ao quarto colocado é muito grande, mas a pontuação desses últimos é importante para analisarmos como será a transferência de votos. Está claro que Marine Le Pen (de extrema direita) não pedirá que seus eleitores votem em Sarkozy, enquanto Jean-Luc Mélenchon (extrema esquerda) convocará seus seguidores a votar em Hollande. Assim, a transferência de votos se mostra muito mais favorável ao socialista.

E o que explica o afastamento entre Sarkozy e Le Pen?

O problema de Sarkozy quanto ao eleitorado da Frente Nacional (de Le Pen) é que ele defende seu governo. Em 2007, ele se apresentava como o homem que traria de volta a autoridade, o controle da imigração, a segurança, aproximando-se das bandeiras dos eleitores da extrema direita. Hoje, parte desses eleitores considera suas expectativas em relação a Sarkozy frustradas.

A campanha recolocou a

oposição entre esquerda e direita no centro do debate?

Se comparamos com a campanha de 2007, há uma diferença mais perceptível. Na atual, Sarkozy tem um discurso de direita mais duro do que há cinco anos. Naquela época, ele chegava mesmo a evocar personalidades da esquerda para também atrair eleitores insatisfeitos com o Partido Socialista, embora também acenasse para os eleitores da Frente Nacional. Hoje, os candidatos estão em uma situação na qual terão de buscar os votos nos seus extremos, à direita e à esquerda.

/ A. N.

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