Desviar foco do Oriente Médio é difícil, diz historiador

Para especialista britânico, bases ideais para um acordo não estão presentes e será difícil adquiri-las sem confiança

ALESSANDRO GIANNINI, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h01

Os EUA, Israel e a formação de um Estado palestino no Oriente Médio estão intrinsecamente ligados e não há a possibilidade de a liderança americana se afastar dessa questão para cuidar de outros temas urgentes ou mudar radicalmente o centro de sua política externa.

Na visão do historiador britânico David Reynolds, autor do livro "Cúpulas - Seis Encontros que Moldaram o Século XX" (Editora Record), as razões para isso estão no forte lobby judaico americano - especialmente em relação aos presidentes democratas - e na percepção geopolítica de que Israel representa e defende valores democráticos em uma região estratégica.

"Desde os anos 1940, há uma percepção ampla nos EUA de que Israel defende essencialmente valores democráticos e ocidentais em uma região onde esses valores estão isolados", disse ele ao Estado, em uma entrevista por telefone, de seu escritório na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. "Em outras palavras, os Estados árabes são diferentes em termos de cultura e valores políticos."

Para Reynolds, a tendência nos EUA agora é ligar os Estados árabes ao Islã, sendo que este último acaba associado a extremismo e terrorismo, o que, segundo o próprio historiador, não é uma equação justa ou correta.

O fato de o Irã adquirir capacidade de refinar urânio e a possibilidade de ter condições de usá-lo em armas nucleares retoma a questão das armas de destruição em massa. Por isso, de acordo com Reynolds, o tema ressurgiu como problema central para os EUA. Em termos de ameaça a Israel, isso é mais sério do que os problemas de longo prazo. "Esses problemas estão aí há muito tempo", explica ele. "Não há muitos progressos, mas eles são conhecidos. Agora, um país com capacidade de refinar urânio para uso em armas nucleares é outra coisa."

Reynolds disse que uma solução de curto prazo está cada vez mais difícil. "Os ingredientes para isso não estão lá", disse ele. "É preciso um governo palestino com autoridade - e controle - de fato para negociar em nome de seu povo. E um governo israelense que esteja disposto a negociar em bases sérias questões como os assentamentos e o Estado de Jerusalém."

Para o historiador britânico, isso está longe de acontecer. Em seu livro, ele explica que a Cúpula de Camp David, em 1978, só ocorreu porque havia um laço de confiança entre o então presidente Jimmy Carter e os líderes Menachem Begin (Israel) e Anuar Sadat (Egito). "Com Obama, isso não existe", explica ele. "Não há base de confiança entre ele e Binyamin Netanyahu ou a Autoridade Palestina."

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