Cláudia Trevisan/Estadão
Cláudia Trevisan/Estadão

Desvio do transporte público para funeral de Fidel deixa cubanos à pé

Em dia normal de trabalho, cidadãos se perfilavam nas principais avenidas de Havana, na esperança de conseguir uma lotação ou uma carona; em condições normais, moradores já enfrentam um sistema de transporte precário

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Havana, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2016 | 05h00

Castigados por um sol inclemente, moradores de Havana esperaram durante horas nesta terça-feira por transporte, sem saber se conseguiriam chegar a seus destinos ou retornar às suas casas. 

Na preparação para a última grande homenagem a Fidel Castro em Havana, o governo cubano suspendeu o transporte público na capital e deixou a população à mercê dos carros particulares que atuam como lotação ou de caminhões clandestinos que levam passageiros amontoados na carroceria.

Toda a frota da cidade foi mobilizada para levar pessoas à Praça da Revolução, onde um grande ato público foi marcado para as 19 horas (22 horas em Brasília). A televisão oficial anunciou durante o dia os pontos de encontro de onde partiriam os ônibus, em concentração prevista para o início da tarde.

Nesta quarta-feira haverá outra reunião organizada pelo Estado no Malecón, calçadão à beira-mar de onde partirá a caravana que levará as cinzas de Fidel para Santiago de Cuba, onde ele proclamou a vitória da Revolução em 1.º de janeiro de 1959. O cortejo fará o trajeto inverso ao percorrido pelo líder cubano há quase 58 anos. 

Em condições normais, os moradores de Havana já enfrentam um sistema de transporte precário, com ônibus lotados e sem regularidade. Com a tendência de reagir com humor à adversidade, cubanos comparam a experiência do transporte público a um filme de sábado à noite proibido para menores, no qual há sexo e violência. Mulheres se queixam de abusos, enquanto empurrões são vistos como algo inerente à experiência.

Apesar da suspensão do transporte público, esta terça-feira não foi feriado em Havana. Desde a manhã, cidadãos se perfilavam nas calçadas das principais avenidas, na esperança de conseguir uma lotação, uma carona ou um carro clandestino.

Com 75 anos, Angel Urra combateu sob o comando de “Che” Guevara na Revolução Cubana e integrou as tropas enviadas por Fidel para lutar em Angola nos anos 70. Aposentado, ele recebe uma pensão de 270 pesos, o equivalente a US$ 11. Nesta terça-feira, ele saiu às 4 horas de Matanza para uma consulta médica em Havana, em uma viagem de pouco mais de 100 quilômetros. 

Depois de sair do hospital, esperou durante uma hora por um ônibus que nunca chegou, ao lado da neta, Danaise Urra. Com problemas cardíacos, ele não conseguia caminhar, por perder o fôlego. 

A estação de ônibus para onde ele iam estava fechada, por estar localizada nas imediações da Praça da Revolução. Em tese, o serviço havia sido transferido a outro local, mas não havia informações precisas sobre o endereço. 

“Hoje é um dia especial e todos estão mobilizados para o ato na Praça da Revolução”, disse Urra. O ex-combatente leva até hoje na carteira a foto de seu comandante imediato durante a guerrilha, Eliseo Reys, que aparece na imagem em branco e preto com um boné semelhante ao que foi celebrizado por Che Guevara. Como o líder revolucionário, Reys foi morto na Bolívia em 1967.

Urra atribui parte das dificuldades econômicas de Cuba ao embargo imposto pelos Estados Unidos em 1961, mas reconhece que a ineficiência do Estado também contribuiu para as dificuldades enfrentadas pela população. “Cuba é um país pobre, mas fizemos coisas que outros países não fizeram em saúde e educação”, observou, repetindo o mantra dos que celebram o legado de Fidel.

A contadora Yaneice Lopéz esperava havia duas horas na fila de um ônibus que não chegaria. Antes, já havia aguardado uma hora por uma lotação. Um caminhão clandestino lotado de passageiros chegou enquanto ela esperava em uma longa fila, mas quebrou em seguida.

A frota de ônibus em Cuba é velha e sofre com a falta de peças de reposição. O preço das passagens é de 0,20 pesos (menos de US$ 0,01) e 0,40 pesos, dependendo do tipo de veículo. Há cerca de dois anos, o governo permitiu o funcionamento de cooperativas que operam ônibus mais modernos, com ar condicionado, nos quais é proibido carregar passageiros em pé. Neles, a passagem custa 5 pesos (US$ 0,20), mas a oferta é restrita.

 

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