Detenção abre escândalo na Argentina

Venezuelano detido sábado com US$ 790 mil estava acompanhado de funcionários de alto escalão do governo Kirchner

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

Um novo escândalo que levanta suspeitas de corrupção envolve o governo do presidente argentino, Néstor Kirchner, com a Venezuela de Hugo Chávez. A lista de protagonistas do caso inclui um misterioso venezuelano que desembarcou de um jato privado em Buenos Aires na madrugada de sábado, carregando uma maleta com US$ 790 mil que não haviam sido declarados. Segundo a Justiça, entre as outras pessoas a bordo do jato - que vinha de Caracas - estavam os argentinos Claudio Uberti (diretor do órgão que fiscaliza os contratos de concessões das rodovias) e Ezequiel Espinosa (presidente da Enarsa, a estatal petrolífera criada por Kirchner que ainda não saiu do papel). O avião havia sido alugado pela Enarsa.O venezuelano que levava a maleta foi identificado como o empresário Guido Antonini Wilson, segundo fontes da Justiça. Quando os agentes da alfândega lhe perguntaram o havia na maleta, disse que eram ''''livros''''. Mas, ao abrir a valise, os agentes descobriram que ela estava cheia de dólares e a confiscaram. Wilson disse que integrava a comitiva de Chávez, que desembarcaria na segunda-feira em Buenos Aires, e foi liberado.A Unidade de Investigações Financeiras investiga um possível delito de lavagem de dinheiro. Ontem, as investigações centraram-se em Uberti, um importante assessor do poderoso ministro de Planejamento e Obras, Julio De Vido. Braço direito de Kirchner na área econômica, De Vido está envolvido no maior escândalo de corrupção do atual governo, o ''''caso Skanska''''. Outros 21 funcionários de Kirchner também estariam envolvidos nesse caso de subornos e superfaturamento de mais de 150% do valor de obras para ampliações de três gasodutos na Argentina.Uberti é um homem-chave na relação de Buenos Aires com Caracas. Ele foi o encarregado de diversas negociações do governo Kirchner com Chávez, entre elas a compra de bônus da dívida pública argentina e a operação de salvamento financeiro da megacooperativa de laticínios Sancor. Em 2005, Uberti havia sido cotado para assumir a embaixada na Venezuela (a pedido de Chávez), cargo finalmente ocupado pela líder sindical Alicia Castro, uma chavista confessa.Numa nota divulgada ontem, a Enarsa afirma que ela havia alugado o avião para transportar seus funcionários, encarregados de acertar detalhes de um acordo sobre gás natural com a Venezuela, e procura desvincular Espinosa e Uberti do caso. ''''Wilson reconheceu ser o proprietário'''' da maleta, diz a nota. ''''Como a bagagem dos passageiros restantes não apresentou anomalia, os mesmos se retiraram do aeroporto.'''' Segundo a Enarsa, também estavam no avião quatro executivos da estatal petrolífera venezuelana, a PDVSA: Ruth Berhrrenes, Nelly Cardozo, Wilfredo Avila e Daniel Uzcateguy Speech.Terça-feira, antes de partir de Buenos Aires, Chávez, irritado, negou que Wilson integrasse sua comitiva: ''''Isso é totalmente falso... é um plano do império (os EUA) para perturbar nossas viagens.'''' Desde o fim de semana, o paradeiro de Wilson é um mistério. A alfândega não sabe se ele ainda está na Argentina. O jatinho, no valor de US$ 12 milhões, continuava no aeroporto. Rumores no âmbito político indicavam ontem que o dinheiro na maleta teria sido enviado por Chávez para a campanha da primeira-dama, Cristina Kirchner, para a eleição presidencial de outubro. Rumores similares surgiram durante a visita de Chávez à Argentina em 2005, quando Cristina era candidata ao Senado.A bancada de oposição no Congresso apresentou um pedido para que o governo explicasse por que funcionários argentinos estavam no vôo, mas os governistas derrubaram a solicitação por 92 votos a 78. Vários casos de corrupção surgiram recentemente no governo. Um deles derrubou, semanas atrás, Felisa Miceli da pasta da Economia, depois que uma misteriosa sacola com dinheiro foi encontrada no banheiro de seu escritório.

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