Detenção de dona do Clarín causa polêmica

A detenção de uma das mais ricas e poderosas mulheres da Argentina, Ernestina Herrera de Noble, está causando grande polêmica no país. De Noble foi detida na terça-feira à noite, por ordem do juiz Roberto Marquevich, que suspeita que ela tenha adotado de forma ilegal seus dois filhos. O juiz suspeita que as crianças, adotadas em 1976, sejam filhos de desaparecidos políticos durante a última ditadura militar (1976-83). De Noble é a dona do jornal "Clarín", o de maior tiragem e mais influente da Argentina.Com sua proprietária atrás das grades, o "Clarín" retaliou imediatamente. Hoje, colocou como manchete em quase metade de sua capa o título "Detenção arbitrária da diretora de Clarín". Além disso, o jornal desferiu fortes críticas contra Marquevich, afirmando que, neste tipo de caso, geralmente o juiz deve emitir primeiro uma convocação formal para prestar depoimento, e não uma detenção categórica.O Grupo Clarín também explicou que os advogados de De Noble pediram à Justiça que ela possa cumprir a prisão em seu domicílio, já que tem 77 anos de idade e problemas de saúde - entre eles, diabetes.Os pivôs do escândalo, seus dois filhos adotivos, teriam sido crianças de desaparecidos políticos durante a ditadura. Sob este regime, um dos mais cruéis da América Latina, foram assassinadas mais de 30 mil pessoas, entre elas opositores da ditadura, além de civis sem participação política alguma. As organizações de defesa dos direitos humanos calculam que 500 crianças - raptadas com seus pais ou nascidas no cativeiro - teriam desaparecido nas mãos dos militares.Nos últimos 25 anos, as Avós da Praça de Maio encontraram pelo menos 70 crianças desaparecidas, que recuperaram suas identidades originais. A investigação sobre as crianças de De Noble foi iniciada a pedido das Avós, em 1995. A dona do "Clarín" teria ocultado as verdadeiras identidades das crianças, além de adulterar documentos.A líder das Avós, Estela de Carlotto, declarou hoje que o caso De Noble "é uma situação delicada. É uma civil. E sempre tentamos dialogar com os civis. O juiz resolveu as coisas de uma forma que eu não sabia".No entanto, explicou que "aquela pessoa que comete um delito roubando crianças, seja lá quem for, é uma delinqüente; mas, se for inocente, isso também precisa ficar claro".Carlotto, que desembarcou hoje em Buenos Aires proveniente da Europa, disse que possivelmente amanhã as Avós realizariam uma coletiva para falar amplamente sobre o assunto.De Noble adotou duas crianças logo após o golpe militar de 1976. A primeira criança, sua filha Marcela, foi adotada em maio daquele ano.Segundo a dona do "Clarín", a criança, registrada posteriormente como Marcela, foi encontrada em uma caixa colocada diante da porta de sua casa. Em julho de 1976, De Noble pediu a adoção de um menino, Felipe, filho de uma mulher que teria dado a criança à dona do "Clarín".De Noble assumiu o controle do "Clarín" quando seu esposo, Roberto Noble, faleceu em 1969. De lá para cá, o jornal - fundado no início dos anos 50 sob os auspícios do então presidente e general Juan Domingo Perón - não parou de crescer. Nos anos 70 e 80, deslocou do topo do ranking jornais tradicionais como o centenário "La Nación" e o "La Prensa".Nos anos 90, ampliou sua presença nos meios de comunicação adquirindo canais de TV e rádios. No meio jornalístico, o Grupo Clarín é alvo de diversas críticas que o acusam de "monopólio". O poder do jornal é significativo, e - segundo analistas da área - pode determinar mudanças na política econômica do governo e destronar lideranças políticas.A mídia argentina está dividida sobre o caso De Noble. O principal rival do "Clarín", o "La Nación", colocou o assunto na capa, mas preferiu destacar o protesto da empresa pela detenção de sua proprietária. O jornal "Página 12" dedicou amplo espaço, em um tom levemente crítico.No entanto, o jornal econômico "Ámbito Financiero" - velho inimigo do "Clarín" - aproveitou para destacar que o jornal está em seu pior momento financeiro, que deve US$ 1,4 bilhão e que está sendo perseguido pelos credores. Além disso, o "Ámbito", um dos bastiões jornalísticos do ex- presidente Carlos Menem (1989-99), acusou o "Clarín" de "soberbo".A detenção de De Noble causou estupefação na Argentina. Tanto nos setores políticos como empresariais, existe extremo cuidado para falar sobre o assunto. Por um lado, o "Clarín" foi uma das principais fontes de denúncias contra o governo Menem, acusado de mais de uma centena de casos de corrupção. Por outro, a proprietária está envolvida em um escândalo - o da adoção de seus filhos - que se vincula à ditadura, considerado o período mais sombrio da história argentina.Diversos ex-repressores estão detidos por causa dos seqüestros de crianças durante a ditadura. Entre eles, os generais Jorge Rafael Videla, Reynaldo Bignone e o almirante Emilio Massera.

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