DAVID MCNEW/AFP
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Detenção de ilegais é a mais baixa em 40 anos

Nos 2 últimos anos, fluxo foi contido justamente pela ação do México, que barrou e deportou milhares de centro-americanos

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 05h00

WASHINGTON - Quando anunciou a construção de um muro de 2.200 km de extensão e 40 metros de altura na fronteira com o México, Donald Trump descreveu os EUA como uma nação inundada por imigrantes ilegais, muitos dos quais delinquentes que levam drogas e violência a seu país. Mas as estatísticas mostram que o número de pessoas apreendidas ao cruzar a fronteira está no mais baixo patamar desde a década de 70. 

Nos últimos dois anos, o fluxo foi contido pela atuação justamente do México, que deportou dezenas de milhares de centro-americanos que fugiam da pobreza e criminalidade em direção aos Estados Unidos. Apesar de serem o principal alvo dos ataques de Trump, os mexicanos representaram menos da metade dos que foram detidos na fronteira no sul dos EUA. Do total de 416 mil, 223 mil vinham da América Central.

O pico da imigração de mexicanos para os EUA foi registrado dos anos 80 até o início da década passada. O recorde ocorreu no ano 2000, quando 1,6 milhão de pessoas foram detidas pela polícia fronteiriça. O fluxo diminuiu depois da crise financeira de 2007-2008 e não voltou aos patamares anteriores.

Trump também apresenta o muro como uma barreira ao tráfico de drogas. Mas estatísticas da agência de combate às drogas (DEA) mostram que a maior parte dos entorpecentes entra nos EUA pelos postos oficiais da fronteira, escondida em meio a mercadorias transportadas em caminhões. 

Os imigrantes foram descritos por Trump como criminosos que ameaçam os americanos, mas estudo do Pew Research Center concluiu que a primeira geração de imigrantes ilegais que vivem nos EUA comete menos delitos do que a média da população. Ilegais, eles se esforçam para ficar fora do radar da polícia. A criminalidade aumenta na segunda geração, nascida nos EUA, mas para índices semelhantes à média nacional.

“O cenário apresentado por Trump é uma ficção. Ele está criando um reality show com base em exageros que não têm base na realidade”, disse Vicki Gaubeca, diretora para direitos da fronteira no Novo México da principal entidade de defesa dos direitos civis dos Estados Unidos, a ACLU. Segundo ela, os imigrantes na fronteira estão “aterrorizados” com a possibilidade de aumento das deportações no novo governo.

O muro ainda é uma realidade remota, já que demandará anos para sua conclusão, mas muitas das medidas anunciadas por Trump terão impacto imediato na vida dos 11 milhões de imigrantes que vivem nos Estados Unidos sem documentos.

A principal delas é a mudança nos critérios que definem as prioridades para a atuação dos agentes de imigração. Na gestão de Barack Obama, os esforços eram concentrados em autores de crimes graves, pessoas que representavam ameaças à segurança nacional ou aquelas que haviam entrado no país recentemente.

Trump ampliou esse leque para incluir atos como dar declarações falsas a agências de governo ou “abusar” de programas de concessão de benefícios públicos. “Isso tem o potencial de atingir toda a população de imigrantes (sem documentos). Não há diferenciação entre os que estão trabalhando duro para alimentar suas famílias dos que realmente representam um perigo”, avaliou Brent Wilkes, diretor executivo da Liga Unida de Cidadãos Latino-Americanos (Lulac).

Muitos dos 11 milhões de ilegais vivem nos EUA há mais de uma década, trabalham e pagam impostos. Em vários Estados, eles podem obter carteira de motorista e, em todo o país, políticas públicas impedem que escolas peçam prova de status migratórios para seus alunos. Se não se envolver em crimes, a maioria consegue viver sem problemas.

No início de sua campanha, Trump prometeu deportar todos os que estejam nos EUA de maneira irregular. Depois de sua vitória, o presidente reduziu para 2 a 3 milhões este número, limitando, segundo ele, a pessoas que teriam cometido crimes.

A deportação em massa teria impacto sobre a economia americana, especialmente em setores com elevada dependência de mão de obra barata. Os imigrantes sem documentos representam 5% da força de trabalho do país, mas o porcentual é bem maior em determinadas áreas. Na agricultura, ele chega a 26%, de acordo com estudo do Pew Research Center. Em serviços de limpeza e manutenção, a fatia é de 17%. Na construção, de 14%.

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