Detenção, retaliação, intimidação

A cada momento vai se tornando menos factível a tese de que a retenção do brasileiro David Miranda no Aeroporto de Heathrow, em Londres, se daria mesmo se ele não fosse o companheiro de Glenn Greenwald, colunista do jornal britânico The Guardian que publicou informações sobre o gigantesco esquema de espionagem denunciado por Edward Snowden, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA. Celular, computador, pen drives e cartões de memória do brasileiro foram confiscado pelas autoridades britânicas com base numa lei antiterrorismo da Grã-Bretanha.

Roberto Lameirinhas,

19 de agosto de 2013 | 21h22

Greenwald, que mora no Rio com Miranda e recebeu de Snowden a denúncia da espionagem da NSA em escala global, e a Anistia Internacional não têm dúvida de que a detenção resultou de uma ação de retaliação e intimidação dos agentes britânicos. No momento em que foi interceptado pelos agentes britânicos, Miranda retornava ao Brasil depois de ter visitado, na Alemanha, Laura Poitras, uma cineasta americana que já tinha trabalhado com Greenwald na reportagem sobre a denúncia de Snowden.

"É altamente improvável que David Miranda, em trânsito em um aeroporto da Grã-Bretanha, tenha sido detido de forma aleatória, diante do papel que seu companheiro teve em revelar a verdade sobre a natureza ilícita de vigilância da NSA", disse a diretora sênior de Legislação e Política da Anistia Internacional, Widney Brown. "Simplesmente não há base para acreditar que ele represente alguma ameaça para o governo britânico. A única intenção possível por trás da detenção foi perturbar a ele e a seu companheiro por seu papel em divulgar as denúncias de Edward Snowden."

Ações de retaliação e perseguição contra responsáveis por vazamentos relacionados a esquemas sigilosos dos governos ocidentais não são novidade.

O próprio Snowden segue refugiado na Rússia, numa tentativa de eludir o rigor das normas americanas, que poderia levá-lo à prisão perpétua. Bradley Manning, soldado americano acusado de divulgar milhares de documentos sigilosos para o site WikiLeaks, tenta acordo judicial para reduzir sua pena que pode chegar a 90 anos de prisão. O fundador do WikiLeaks, o australiano Julian Assange, está confinado desde o fim do ano passado na Embaixada do Equador em Londres - diante da negativa da Grã-Bretanha de lhe conceder um salvo-conduto para que embarque para Quito, onde obteve asilo político. Assange foi julgado e sentenciado sob a acusação de ter cometido crimes sexuais contra duas suecas.

O governo brasileiro qualificou a retenção de Miranda como "medida injustificável. por envolver indivíduo contra quem não pesam quaisquer acusações que possam legitimar o uso de referida legislação [de combate ao terrorismo", por meio de nota divulgada pelo Itamaraty. O parlamentar britânico Keith Vaz deve pedir explicações para a polícia do país pela retenção do brasileiro.

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