Gianni Cipriano/The New York Times
Gianni Cipriano/The New York Times

Detentos tornam-se sommeliers no sul da Itália

Em penitenciária de Lecce, presos aprendem a servir, escolher e identificar os vinhos

O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2017 | 05h00

A penitenciária de Lecce, no sul da Itália, criou um serviço inovador de profissionalização e integração de detentos. Mais de 30 homens e mulheres, muitos condenados por roubo, tráfico de drogas e associação com a máfia, participam de um curso de sommelier oferecido em parceria com uma vinícola local.

A iniciativa partiu do policial Marco Albanese, que há cinco anos é crítico de vinhos na região. Ele é o principal instrutor do curso e mostra como servir, identificar e escolher os vinhos, que na região são conhecidos pela uva negroamaro. Segundo ele, além de oferecer uma profissão aos presos, o curso os aproxima da comunidade. 

“Pude ver o aspecto humano deles, quando estão fora do contexto prisional”, disse. “Eles merecem uma segunda chance e é importante que saibam que as instituições acreditam na educação deles para uma vida diferente.”

A diretora da Penitenciária de Lecce, Rita Russo, diz que o principal objetivo do curso é ensinar o valor social do trabalho aos detentos. “Assim, eles poderão escolher trabalhar com isso com a melhor habilidade possível, se assim quiserem”, afirmou. 

As aulas começam com um pouco de história do vinho. Os detentos são apresentados à origem da bebida, na Grécia Antiga, e sua introdução na Itália, na Era Romana. Depois, Albanese explica conceitos sobre a temperatura correta, como armazenar cada tipo de vinho, detalhes sobre como servi-lo e, claro, a degustação. 

“Lembrem-se que se vocês estiverem num jantar com Donald Trump e o papa, o papa deve ser servido primeiro”, brincou. “O clero tem primazia sobre os chefes de Estado.”

Desde os anos 70, o sistema penal italiano tem como foco a reeducação de prisioneiros, mas a superlotação e a falta de fundos historicamente dificultam esse objetivo. Recentemente, no entanto, algumas parcerias voltadas para o setor gastronômico tem mudado o cenário. No setor de vinhos, a iniciativa de Lecce é inédita. 

“Claro que um curso de sommelier não pode ser considerado um tratamento, mas ajuda na integração do detento, o que é importante”, disse a criminalista Georgia Zara.

 

Dono da vinícola parceira da penitenciária, Gianvito Rizzo vê o vinho como uma bebida democrática. “A vinícola é o oposto da cela razão do contato com a natureza”, disse. / NYT

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