Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE

Deterioração da crise e detenções fazem Brasil mudar de tom

BASTIDORES: Lisandra Paraguassu

O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2015 | 02h03

De olho nos desdobramentos cada vez mais graves da longa crise política venezuelana, o governo brasileiro tem, discretamente, mudado o tom ao tratar do vizinho problemático. Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Mauro Vieira, designou um embaixador para receber as mulheres dos oposicionistas Antonio Ledezma, prefeito metropolitano de Caracas, detido em fevereiro, e de Leopoldo López, líder do partido opositor Voluntad Popular, preso há mais de um ano. A atitude do Itamaraty, inédita em relação aos opositores venezuelanos, não agradou a Caracas, mas foi um recado de que o Brasil não tem apreciado os movimentos do governo de Nicolás Maduro.

Desde a detenção de Ledezma - acusado publicamente por Maduro de participar de um complô para derrubá-lo do poder - o governo brasileiro tem deixado claro aos venezuelanos que as últimas ações não são um bom caminho. Apesar das tentativas de mediação entre oposição e governo feitas por um comitê de chanceleres da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), a avaliação do Brasil é de que houve mudanças na Venezuela, mas não foram para melhor, como analisa uma fonte do governo.

Apesar dos atos recentes do presidente venezuelano, o governo brasileiro não acredita que exista chance de um "autogolpe". Há, no entanto, uma preocupação de que setores do próprio governo chavista não tenham pudores em tentar um golpe de Estado, mesmo à revelia de Maduro, caso concluam que podem perder o poder.

Sempre cuidadoso em não abrir fogo diretamente contra os vizinhos para não perder a capacidade de diálogo, a intenção do Palácio do Planalto é demonstrar claramente - tanto para o governo quanto para a oposição venezuelana - que "um certo caminho", o do golpe, não é bom nem para a Venezuela, nem para a região.

Ainda assim, há a preocupação de manter abertos os canais de diálogo - mesmo porque, lembra uma fonte do governo, são 25 mil brasileiros vivendo no país vizinho e as relações comerciais, ainda que abaladas pela profunda crise que o país enfrenta, ainda são muito fortes.

A mudança de tom do governo brasileiro começou em fevereiro, depois da prisão de Ledezma e da invasão das sedes do partido opositor Copei. Pela primeira vez, o Itamaraty fez uma nota longa em que criticava abertamente as ações do governo venezuelano. Em seguida, durante uma reunião de emergência dos chanceleres da Unasul, outro texto, negociado pelo Brasil, pediu pela primeira vez o "pleno respeito às instituições, aos direitos humanos e ao estado de direito", citando ainda o cumprimento dos "mecanismos democráticos da Constituição".

No início deste mês, ao se encontrar com a chanceler venezuelana, Delcy Rodríguez, em uma reunião no Equador, Mauro Vieira cobrou que fosse marcada "o mais brevemente possível" a data para as eleições parlamentares na Venezuela. A disputa pelas cadeiras do Legislativo estava marcada para 2015, mas a definição da data exata pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) ainda está pendente.

Em abril, durante entrevista para a rede de televisão CNN em Espanhol, a própria presidente Dilma Rousseff tratou, "em tese", das prisões de oposicionistas na Venezuela. Ao ser questionada sobre os casos de Ledezma e López, ela afirmou que não se intrometeria em assuntos de países vizinhos, mas acrescentou: "Nós, no Brasil, teremos uma posição clara com relação ao direito de expressão, de livre manifestação. Nós não cremos que a relação melhor com a oposição seja encarcerar quem quer que seja, a não ser que cometa algum crime. Se não cometeu crime, não pode ser preso."

A própria determinação de que o Itamaraty recebesse Lilian Tintori, mulher de López, e Mitzy Ledezma, de Antonio Ledezma, partiu da presidente e foi anunciada por Mauro Vieira a jornalistas.

Coube ao chefe do Departamento de América do Sul, embaixador Clemente Baena Soares, conversar com as mulheres dos oposicionistas, que pediram a mediação do Brasil pela liberdade dos dois políticos e de outras dezenas de detidos que, segundo a oposição, foram encarcerados durante protestos contra o presidente, em fevereiro do ano passado. A mudança na posição brasileira ficou mais evidente com o contraste com casos anteriores, como o da visita ao Brasil da ex-deputada de oposição María Corina Machado, em abril. Na ocasião, ninguém do governo fez questão de recebê-la.

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.